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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Bate-Bola Jogo Rápido : Ulisses Pinheiro

Caríssimos,
primeiramente peço perdão pela ausência prolongada de postagens em nosso blog. Esse sumiço todo foi devido - em parte - à greve em nossa faculdade, que minou nossa convivência (dos fundadores do blog) e tornou bem mais difícil a tarefa de discutir e ter ideias de coisas interessantes para postar. Eu mesmo, em mais de duas ocasiões tentei em vão redigir algo. Ademais, ponha na conta da preguiça esse apagão todo.
Enfins, dito isso...


Já q
ue nos aproximamos das eleições, achei por bem começar a postar algumas coisinhas referentes a discussão política. Seria interessantíssimo se pudéssemos reunir aqui a opinião e ideias dos mais diversos candidatos e partidos, mas veremos adiante como e se será possível levar adiante este projeto. De qualquer forma, inaugurando a sessão de debates, trago o candidato a deputado estadual do partido Socialismo e Liberdade - PSOL, Ulisses Pinheiro Lampazzi. Deixando a imparcialidade de lado, manifesto minha admiração pela figura que Ulisses representa. De fato, não o conheço pessoalmente, mas de diversas referências positivas que ao longo dos meses vim recebendo com relação a ele. Referências estas que vêm desde depoimentos de amigos em comum até elogios de militantes da causa socialista em Franca. Pinheiro, antes de lançar oficialmente sua candidatura já participava de movimentos em busca de melhorias para a nossa cidade, o que denota uma verdadeira preocupação que transcende a mera propaganda política. O candidato tem 26 anos, é professor de história e poeta.

Mais informações sobre Ulisses e seus projetos podem ser encontrados em seu site,
http://www.ulisses50.com.br

...bem como em sua página no Facebook:
https://www.facebook.com/ulissespinheiropsol?fref=ts

Dito isso, vamos ao bate bola com 3 curtas perguntas:



HVMANITATIS – Vê-se em seu site que você vem trazendo propostas preciosas, mas que vão contra o domínio de interesses que operam a realidade de nossa sociedade. Assim, como – efetivamente - o senhor pretende lidar com uma possível falta de apoio na câmara?

Ulisses Pinheiro : Tem-se uma visão de que política se refere apenas às esferas de poder. O PSOL vai além ao propor a radicalização da democracia, ou seja, uma maior participação popular. Num primeiro momento, nossas pautas realmente se chocarão com interesses defendidos pela assembleia atualmente. No entanto, utilizaremos nossa relação positiva com a população para pressionar por mudanças. Em Franca, isso tem dado certo, na medida em que várias vezes barramos ou aprovamos projetos favoráveis por levar quase 50 pessoas para a assembleia municipal. Os velhos políticos ainda não estão acostumados com a participação popular.


HVMANITATIS – Você defende a legalização da maconha. No entanto, alguns estudos mais recentes apontam também para um viés negativo da droga, num cenário onde o consumo pode causar danos cerebrais irreversíveis.

(cf.http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/06/120606_maconha_riscos_rp.shtml)

Assim, legalizar uma droga cujos efeitos ainda não são totalmente compreendidos não constitui um problema de saúde pública a longo prazo?

Ulisses Pinheiro : Nossa defesa não vai em relação à drogas, mas pelo combate ao tráfico, principal causador de violência e mortes, de uma forma inovadora que dialogue com a realidade. A droga faz mal e tem graves efeitos sobre a saúde pública, mas não se compara com o álcool e cigarros, drogas que mais matam no mundo. A ideia de legalização passa pelo controle de produção e distribuição pelas mãos do Estado, exigindo cadastros e exames médicos frequentes para minimizar danos e retirar o viciado das mãos do crime organizado. A legalização, ao contrário de trazer o aumento de usuários, cria na verdade um maior controle do Estado, diminuindo o número de mortes e usuários, como pode se ver em Portugal, Bélgica, Holanda e Uruguai, que legalizaram ou descriminalizaram a droga.


HVMANITATIS – Qual a sua opinião sobre o aborto e como o senhor pretende lidar com a defesa dos direitos da mulher, especialmente nas ocasiões em que o aborto já é previsto na legislação, assegurando a efetividade da lei?

Ulisses Pinheiro : O aborto, por mais que seja combatido, é uma triste realidade no Brasil. Milhares de mulheres abortam clandestinamente todos os anos...com grande taxa de mortes, sobretudo entre as mais pobres que não podem pagar um processo de qualidade. Sempre defenderemos a vida, mas a mulher tem direito sobre o próprio corpo e cabe ao Estado acolher e ajudar a programação familiar, não criminalizar, como é feito. Sobre os direitos da mulher num âmbito geral, estamos alinhados com as propostas feministas que aprofundam liberdades, criminalizam a violência e defendem uma sociedade capaz de superar o machismo e o moralismo religioso que impedem o avanço de direitos humanos.


Agradecemos imensamente a atenção do candidato, creio ser de extrema importância perguntarmos, confrontarmos e conhecer cada vez mais nossos políticos: disso depende o futuro de nosso país.

P.S. - Os contatos para Ulisses estão dispostos nos links acima. Contudo, se alguém tiver em mente alguma pergunta e quiser mandá-la para o HVMANITATIS para que a repassemos futuramente a outros candidatos, fique à vontade. Vocês podem se utilizar dos perfis no facebook para contato, ou mesmo através de comentários aqui no blog.

Vlws Flws!
Pax.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Monólogo vermelho - parte 2

O período de vacas gordas em que meus pais fizeram carreira em empresas multinacionais lhes rendeu uma casa sem portão num daqueles bairros nobres cercados por grandes muros, aos moldes dos feudos medievais. Hoje, em contrapartida, ambos, meu pai e minha mãe, aposentados, não desfrutam mais da bonança dos vencimentos gordos no final do mês; e apesar da aparente “boa condição financeira” (digo aparente somente devido ao fato do imóvel familiar estar posto em bairro nobre), vivem uma vida absolutamente modesta, como a maior parte da população do país.
Então, pela manha, quando nos sentávamos ao café, meu pai retornou da sua caminhada  matinal irritado.
 - É um absurdo! A empregada da Fulana regando o jardim. Não sabem que a água está acabando. A empregada da Ciclana lavando a calçada. A água está acabando! Eu não aguentei e fui conversar com as duas. A resposta que me apresentaram foi a mesma: “Ordens da patroa, converse com ela”. Será que essas pessoas não sabem do problema da seca em São Paulo?
Eu:
- É claro que sabem pai. Sabem; mas não se importam. Ontem eu li uma reportagem que dizia que os bairros que tiveram uma menor economia no consumo de água no estado foram os bairros mais abastados. Como dizia a professora Marilena Chauí, isso ai é a “síndrome da classe média”, “a classe média paulista é uma abominação  ideológica”.
Então, ele sorriu ironicamente. E eu, já velho de guerra, esperava a ilustre pergunta que ele não tardou dois segundos a fazer:
- E você, o que é? 
-Eu sou de esquerda, pai...
- Esquerda, direita; tudo isso não existe. Todas essas bobagens só te afastam dos caminhos do Senhor.
- Exatamente! Só não posso concordar que são bobagens.
Então, envenenado pelo meu proselitismo político, eu mais uma vez vestia o meu terno vermelho, corri buscar o meu Le Monde Diplomatique do Brasil (n° 87, desse ano) que eu coloquei dobrado abaixo das minhas axilas, com os ilustres dizeres na capa: “A esquerda no Brasil”.
Assim, como um pastor protestante, imaginei um púlpito e uma platéia de ouvintes, projetei a minha voz de modo a tornar claro e convincente o discurso (técnicas simples que melhoram muito a oratória), e veementemente iniciei a minha pregação:
- Enquanto o capitalismo produzir a aumentar a desigualdade social, enquanto o capitalismo ampliar o abismo entre ricos e pobres, enquanto o capitalismo impor uma vida miserável ao infindável contingente de trabalhadores, será preciso enfrentar esse modelo de produção e de organização social, que toma a roupagem do neoliberalismo. Tudo o que os tubarões neoliberais da direita querem é concentrar a riqueza, é monopolizar os lucros das grandes empresas, é criar um sistema de injustiças que mantem uma minoria de abastados em detrimento à um contingente de miseráveis. A esquerda, na contramão, quer que as riquezas se transformem em bem-estar para toda a sociedade.
Na atualidade, a esquerda se opõe à políticas neoliberais; políticas essas que querem a eliminação dos direitos e benefícios dos trabalhadores, que prezam pela destruição de benefícios sociais como o acesso à saúde e educação publicas. Ser de esquerda é defender políticas públicas universais, para a manutenção e ampliação de direitos públicos comuns, disponíveis para todos, gratuitos, custeados pelos impostos de todos, e não pagos pelo usuário.
Ser de esquerda é se colocar em favor da sustentabilidade ambiental, da diversidade cultural, da igualdade entre raças, gêneros. É se colocar sob uma ótica livre de estigmas no trato de questões antigas como drogas e aborto.
Enfim, ser de esquerda é se colocar contra os mecanismos opressivos e exploratórios, contra as políticas segregacionistas, e acima de tudo, ser de esquerda é salvaguardar uma sociedade mais justa a todos; todos aqueles que pensam assim, são esquerdistas.
E no momento clímax, do meu discurso, quando já emocionado, eu pensava em subir na mesa e declamar em alto e bom tom os versos do hino da Internacional Comunista; percebi que estava sozinho na cozinha. Meu pai havia se retirado. Estava na sala, acreditando no cara de terno e gravata que apresenta o jornal da manhã.










quarta-feira, 11 de junho de 2014

A Copa verteu o copo?

Caríssimos,

Já que estamos em clima de Copa ( ou não ), acho válido deixar aqui expressa minha PAIXÃO pelo dito ESPORTE. E vejam, essa história de amor não vem do berço, não!
Na verdade, minha versão miniatura até cerca dos 13 anos ODIAVA futebol.
Eu me perguntava à época: "Qual a graça de 22 marmanjos correndo atrás de uma bola?" - E isso no auge de minha pré-adolescência (ou "aborrecência"). A verdade é que nessa época eu achava mais produtivo fingir que gostava de REBELDE só pra ter mais papo com as menininhas. Lamentável, eu sei...mas de certo modo dava resultados até que satisfatórios.
Bem, de qualquer modo, aos poucos fui me habituando a jogar nas aulas de educação física, depois através do PES, depois assistir e então finalmente me tornei fã da modalidade.
Corinthiano roxo, vi meu time ascender em 2009 com Ronaldo, ser campeão brasileiro em 2011, das américas (INVICTO) e do mundo em 2012.
Também vi a seleção jogar em 2010 e xinguei Julio César e Felipe Melo de todos os nomes conhecidos pela raça humana.
Já nessa época, aliás, começavam os burburinhos por causa da escolha do Brasil como país-sede (eleito em 2008, s não me falha a memória)

Para os pessimistas: um FIASCO!
Para os apaixonados: FESTA!
E, para os desonestos, FESTA! (infelizmente)

Desde então, em meio às mortes por acidentes e demais polêmicas, tem sobrado xingamentos para jogadores, políticos e até pra Dilma que já pegara o "bonde andando" e não tinha NADA a ver com a organização, pelo menos diretamente. Mas, enfim, quem é presidentA deve estar preparado para tomar chumbo (coff coff PSDB coff coff [na verdade esse parênteses nem tem nada à ver, mas falar chumbo me lembra tucanos =P]).

Enfim, protesto após protesto, a copa é cada vez mais objeto de escárnio e ódio pela "recém politizada" (Sim, estou sendo super irônico) High-Society e Cult-Society de nosso país lindo e fofo.

Escolas padrão FIFA!
Hospitais padrão FIFA!
Pro escambau com a FIFA, é o que digo! São abutres, mercenários e desprezíveis sim!

BUUUT.... ACORDA BRASIL!

Pois o buraco no qual nossa nação se encontra não tem nada a ver com a FIFA. E se não houvesse copa, esses bilhões de investimentos e desvios de forma alguma iriam para as áreas requisitadas. E tudo isso por um simples motivo: cada área da sociedade já possui seu orçamento!
Assim, se 77 Bi, por exemplo, são reservados à educação, então estes mesmos 77 bi não irão para nenhuma outra área! (Trambiques e desvios estão sendo desconsiderados nesta sentença, ok?). Mas o que eu quero dizer é que com ou sem Copa, o problema está em nosso GOVERNO.

Se for Olimpíada terá desvio!
Se vier o papa terá desvio!
Se baixar o E.T. haverá desvio!
E se Jesus decidir reprisar a Santa-Ceia em Copacabana também haverá DESVIO.

Há desvio porque nosso sistema é podre. Lutemos, então, contra isso! E lutemos também quanto a transformação de jogadores em mercadoria.

Mas DEIXER SER O ESPORTE, por favor! Ele é belo e puro: é arte!
Quer lutar contra a corrupção?
Então, please, menos faixas com frases de efeito para aparecer na rede PLIN PLIN e na capa da VISTA (o nome da emissora e revista vcs imaginam né? Mas tomemos cuidado com os processos).
Por favor, só trate de medir o peso do seu dedinho no dia das eleições, pra não ter mimimi depois!

Agora, de fato, tenho que concordar que talvez essa roubalheira toda possa ter sido a gota d'água num copo já cheio...e o esporte é que pagou o pato.

Sim, meus amigos, parece que a Copa fez verter o copo d'água - Mas não se esqueçam! Os abutres continuam soltos e comendo os cadáveres putrefatos do povo: suas dignidades.

E isso COM ou SEM copa.

Assim, amanhã estarei com a minha bundinha (ou falta dela) bem sentada no sofá assistindo a abertura da seleção - porque GOSTO do esporte e pago meus impostos para poder assistir ao que quiser na MINHA TV.

Se você não gosta, tudo bem! Há inúmeros canais fechados exibindo filmes o dia todo. Ou você pode alugar algo. Ou ler. Seu direito, respeito. Só sou contra os rebeldes sem causa, fique claro.

Este é um país livre!
Livre, inclusive, de bom-senso.

E tenho dito!
Pax Domini :D

quarta-feira, 4 de junho de 2014

VENDO MEU RIM PRA PAGAR A FACULDADE

Bom, eu vou postar esse texto porque eu sou chato, a faculdade está em greve, o que me permite certo tempo de ócio pós-almoço, e, sobretudo, porque gosto de encher o saco dos meus amigos reacionários, que apesar de muito conservadores, mais brancos, cristãos e limpinhos do que eu, eu amo todos de coração.
Tenho acompanhado alguns debates acerca da possibilidade de se cobrar mensalidade dos alunos da USP. À priori, eu sinceramente acho que não existem tantos debates assim, à nível de uma amplitude nacional, mas sim, na cabeça de uma minoria de abastados; o que temos é uma elite minoritária paulista sedenta por sangue, que domina de modo amplo a mídia (leia-se Folha de São Paulo, Veja e rede Globo), que grita feito um marreco desesperado, clamando por “justiça”, querendo resolver de maneira atropelada a “crise do país”, pedindo a cabeça dos “ditadores comunistas petistas malvadões”, pedindo desesperadamente para que se prendam os molequinho negros faveladinhos, que mandem os homossexuais para sanatórios, que espanquem os alunos de filosofia maconheiros, e que clama pela polícia. Policia, borracha nesses sem vergonhas vagabundos! A elite quer polícia, a elite do bandido morto, a elite da violência! A elite quer sangue! A elite tem ódio! Essa é a elite que promove debates do tipo de se passar a cobrar mensalidade dos alunos das universidades públicas.
E, o que mais me impressiona, é que apesar de tamanha sede por justiçamento nunca passou pela cabeça da elite nenhuma alternativa para a resolução de problemas diferente de privatizações e terceirizações. A lógica da elite é a seguinte, começou a dar merda: vende isso ai. A companhias estatais dão muito trabalho, vendamos para os americanos! Vendamos nossas mães quando ficarem velhas para confecções no Brás. Vendamos nossos filhos para fábricas vietnamitas que costuram tênis nike, ou para as chinesas que fabricam ipods. E a partir de hoje, eu quero anunciar que meu rim está a venda, e o primeiro branquelo que chegar com sotaque europeu e me der uma graninha pode levar. Essa é a lógica da elite.  Vamos vender tudo. Vamos rumo ao progresso e a privataria, afinal nós não valemos nada, não sabemos de nada, somos incopetentese; somos uns latinos de merda que ainda vivem em cima de árvores e se locomovem pendurados em cipós. É muito pretensioso da nossa parte pensar que temos a capacidade de gerir nossa produção, nossa economia. É um absurdo pensar em educação pública de nível superior, saúde pública. “Não temos competência pra isso!”
Pois é, mas tem uma coisa que a elite detesta. Essa coisa está para a elite assim como a criptonita estava para o super-homem. Essa coisa que a elite odeia não fede enxofre nem tem chifrinhos e um tridente. A coisa que a elite tem pavor, que é odiosa, deplorável e quaisquer adjetivos que você encontrar para as coisas mais terríveis, fedidas e nojentas, se resume em duas palavras: IGUALDADE SOCIAL. Nunca diga isso perto daquele seu amigo reacionário que defende a ditadura. É mais fácil descrever todo o cenáculo de fogo e enxofre das profundezas das trevas, morada cão que chupa manga, do que falar em igualdade social para o pessoal da elite.
É verdade meu amigo, para os reacionários, antes vendamos nossos rabos para o capital estrangeiro do que nos gestarmos ,a nosso próprio modo, e às nossas próprias circunstancias. Então, deu merda nas Estaduais. O governo das elites quer fazer o que? Privatizar a universidade pública. Porque é a única saída que sabem, e que sempre usaram pra tudo. E não diga o contrário não. No momento em que escrevo esse texto corro sério risco de policiais militares baterem a porta de casa e me pegaram numa mão de borrachadas até me largarem sangrando no chão. Porque aqui em São Paulo é assim que funciona. Falou, não entendeu, borracha neles. Se rolar um tiro, foi acidental, legítima defesa, ou, a bala era de borracha, não era pra furar o peito de ninguém.  Aproveitem meus amigos, ninguém sabe se quando voltarmos da greve teremos um boleto de cobrança em nome do seguinte favorecido: Universidade Estadual Paulista –Julio de Mesquita Filho.
E viva a elite paulistana.

E viva o Pelé, pois como muito bem disse à pouco tempo: “o que importa nesse país é a seleção.”

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Monólogo vermelho - Parte 1


-Xeque.
- É... nós continuamos usando as mesmas jogadas desde os dezoito. Você aparece cinquenta anos mais novo e, pro nosso desgosto, percebo que não evoluímos nada no jogo.
- Apesar de velho, você está menos gagá e mais irritante do que presumira.
Jogávamos Xadrez no asilo no qual fora internado. Eu com vinte e eu com setenta, o velhote brocha, pelancudo e fedendo a mijo que me tornara. Sem mais pormenores, não vou explicar a aurora de tal reunião. Dane-se o leitor. Voltemos a nós dois.
- Pretendo escrever um conto narrando nosso encontro.
- Seu idiota, Borges já fez isso num conto que você leu aos 22.
 - Mas eu ainda tenho 21.
- Isso significa que você ainda não o leu. Então escreva antes de ler o conto para não tender a plagiá-lo! A ideia ainda é original; mas saiba que você será um fiasco como escritor. Brasileiro não tem nada pra falar. Entendemos de bunda, pandeiro e futebol, mas não de literatura. Nos falta aquele calor ardente dos caribenhos. Nunca produziríamos um Garcia Márquez. O Brasil não tem uma safra decente de escritores desde os modernistas.
- Ah... Garcia Márquez... É foda mesmo! Mas e o Paulo coelho? Ele ficou bem famoso!
-Paulo o que? Uma bosta! Escreveu umas músicas pro Raul que até eram legais. Depois disso fumou muita erva e vendeu muita porcaria na Europa. Malditos europeus sedentos por leitura pobre e transcendente.  Deve ser a nostalgia do velho continente. Deixa os caras pirados.
-Você quer falar de que, moleque?
-Política, por favor!
-Pois então diga, o que quer saber?
-Bolivarismo! Socialismo! Que tal começarmos aqui.
-Bom, o Chávez morreu. Você já tava sabendo?
-Sim, foi recente, ano passado, se não me falha a memória.
 -Em relação ao socialismo: olhe aquele velhote barbudo ali. Você o reconhece? -Olhou o idoso magrinho, claramente debilitado, trajando um macacão adidas vermelho, assentado numa cadeira tosca de madeira.
-Não. Quem é?
 -Quem é? Como quem é?! Porra é o Fidel! A Veja até tentou mata-lo em 2012, você não se lembra? Cento e dez anos na carcaça.  Ainda ontem fumamos um Cohiba juntos.
-Eu não fumo, seu desgraçado!
-Você não; eu comecei aos sessenta, depois da revolução Bolivariana de 2050. Um socialista  que se prese precisa de uma barba e de um charuto.
-A... então você é socialista?- Contive o riso, mesmo assim, ele se irritou.
- E você é o que? Você lia Marx sem entender porra nenhuma desde os 15; eu sei mais coisas sobre nós do que você garoto, não se esqueça.
-Cala a boca! E essa revolução ai?
-Bem, A coisa toda começou pouco depois da morte do Chavez; tinha alguma coisa a ver com a saúde, os médicos cubanos, a greve nas universidades públicas, uma copa do mundo no Brasil... Estou tentando me lembrar mas... Não me vem a cabeça...Porra!
 -Só me faltava essa, encontrar-me cinquenta anos mais velho, habitando um asilo nojento e com lapsos de memória.
Nesse momento uma enfermeira se aproxima.
- Señor, venimos a la consulta médica de la semana?

  

Sobre a Europa, a América Latina e o Estado de bem-estar

      Ao ser bombardeado diariamente pela mídia tradicional com perspectivas apocalípticas do futuro brasileiro, me forço a fazer uma análise de contraste. Me entristece ser a plateia que assiste ao progressivo desmonte do Estado de bem-estar social europeu, Estado este construído após duas infernais Guerras Mundiais, em que o sangue de europeus, irmãos entre si, fora derramado por interesses alheios aos da pópria população europeia.
   
     Este desmonte, inaugurado pela loucura da Dama de Ferro, mostra novamente a facilidade com que os interesses e segurança populares são desbancados por questões privadas. Mostra como que a luta e as conquistas sociais são postas em xeque no primeiro momento de desatenção dos cidadãos. Isso é preocupante, ao mostrar que a história não mudou. Como sempre, é sempre interessante recorrermos ao nosso amigo barbudo: a briga de classes nunca cessou, fora meramente apaziguada, durante certo tempo, pelo Estado social. No entanto, esta agora se mostra mais necessária do que nunca.
    
      As duras medidas de austeridade que vêm sendo implantadas, embora não tenham mostrados resualtados reais de melhoras na economia, com certeza têm tornado a vida de milhares de europeus um verdadeiro desastre, como exposto neste artigo da Carta Capital.


A questão latino-americana

      Por mais que se critique, a América Latina, com seus governos de tendências sociais (que são, ao meu ver, pejorativamente taxados de populistas), é um dos únicos pontos de resistência à tendência neoliberal mundial. Não que suas economias sejam socialistas, - bem longe disso - mas sim que certos pontos de bem-estar social ainda são foco de preocupação estatal. Infelizmente, as elites locais ainda exercem uma pressão colossal contra tais medidas afirmativas, com acusações rasteiras e raivosas sobre esses programas - vide Bolsa Família e Mais Médicos. Outra técnica de desmerecimento de tais governos se encontra justamente na previsão de colapso econômico a que, como supracitado, somo sujeitos diariamente.

      A tentativa de instauração de caos público é uma técnica bem conhecida de desestabilização de governos. Tal modus operandi é tradicional neste continente, com prática exímia, como comprovado pelo alastramento de ditaduras militares na década de 60. Conjuntamente com tal método, são lançados candidatos de oposição que, embora usurpem parte do discurso de esquerda, com intuíto de arrecadar votos, como exposto neste artigo do Le Monde Diplomatique, pregam a implementação de certas "medidas impopulares", como o fez certo candidato da oposição ao governo brasileiro.


O contraste

      Feitas as devidas análises, é importante questionarmos: até que ponto nos encontramos realmente na iminência de um colapso ou estamos, na verdade, perante a influência dos mesmos grupos econômicos que pregavam que a "austeridade salvaria a Europa"? Estaríamos dispostos a oferecer o (pouco) que temos de garantias a grupos que não tem compromissos outros do que os seus próprios? Acreditar que os grandes bancos internacionais querem o bem da população brasileira, graças ao seu grande senso de altruísmo?

     É importante lembrar que, por incrível que pareça, o Brasil já cumpriu, com antecedência, dois dos Objetivos do Milênio propostos pela ONU, que têm como prazo 2015: a redução em dois terços da mortalidade infantil dos níveis de 1990 até 2015 e a redução da pobreza extrema pela metade, que o Brasil conseguiu ultrapassar e atingir um quarto.

      Observação: de maneira alguma se faz aqui uma ode ao atual governo federal, mas sim se ressalta como que as medidas sociais têm sim sua importância. Novamente, sendo a América Latina um dos "últimos bastiões" da preocupação social, clamo pela permanência e o progressivo aprofundamento de tais medidas. Vou além: creio que seja a integração continental com nossos "hermanos" a única solução real de combate às excessivas influências externas. À la moldes bolivarianistas, afirmo que passou-se o tempo de removermos a plaqueta "quintal" e reafirmarmos nossa soberania.