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segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Ahh, nos anos 60 ( Agora "ce-senta" e chora --')

Caríssimxs, primeiramente, atentem-se ao meu trocadilho sutil no título =D hahahahhahaha!
Enfim, como eu sempre insisto, o espírito do blog é o diálogo - a discussão.
O embate de ideias ou simplesmente a vontade de falar.
Assim, hoje venho com um texto redigido por outras mãos que não as minhas.
Trata-se de um escrito de uma grande e muito querida amiga que fala um pouco sobre sentimentos (já deu de panelinha política por aqui né?)
Reproduzo o mesmo na íntegra. Destaque para a liquidez das relações as quais estamos submetidos hoje em dia, e que nos faz olhar e buscar por outras realidades onde estaríamos mais preenchidos. É o retorno do velho escapismo, talvez o maior vício dos corações humanos.
Pax....







"Um dia desses eu estava conversando com um amigo, que chamo de irmão pelo leve costume de tratá-lo como sangue do meu sangue – informação essa irrelevante pra história – sobre os relacionamentos e as dificuldades que temos de lidar com as nossas vontades em sincronia com a da outra pessoa (em um relacionamento). No que eu lamentava e colocava expectativas de melhoras na minha situação, ele comentou que apesar de me entender, eu estava tratando meus sentimentos como se estivesse nos anos 60. E, desde deste dia que conversamos a frase que ele me falou ficou latejando na minha cabeça.
Não quero um relacionamento na qual o moço vai ao meio da noite fazer uma serenata pra mim, com direito a lua cheia no céu nem tão pouco namorar ao lado dos meus pais no sofá. Entretanto, quero sentir, que caso eu estivesse na década de 60, eu seria a moça que ele escolheria pra fazer uma serenata. Não quero namorar no sofá, só que não é má ideia passar um dia de chuva assistindo um filme bobo, assim como também não é uma ideia ruim virar a noite numa festa, com direito a risadas causadas pela falta de sono e o efeito das batidas da música na cabeça.
O que quero dizer, se é que posso querer algo, é que espero um relacionamento que seja profundo e tenha cumplicidade e vá além das curtidas do Facebook. Que os desentendimentos existam, as opiniões diferentes também, mas que exista a vontade de abraçar um ao outro e esquecer os motivos que fizeram nos afastar.
Espero construir uma relação contemporânea, porém com as vantagens do passado, com o respeito do passado, com a cumplicidade do passado e o desejo que deve ser presente sempre."




sábado, 13 de setembro de 2014

A Gênese do Mal: diálogo com um exorcista - Parte 3

Caríssimos,

nos dois posts iniciais dessa série, trouxemos a conceituação do mal na concepção cristã, tendo como referência a própria figura do demônio. Posta toda essas perguntas, passaremos agora ao relato de exorcismo. É óbvio que identidades aqui não serão reveladas. Para o relato que se segue, quem se aventurar a ler não o faça por sensacionalismo, mas para compreensão.
Primeiramente, o exorcismo consiste num ritual que visa à libertação do indivíduo em estado de possessão demoníaca. O ritual em geral é realizado com orações em latim - o que constitui um ponto essencial inclusive na descoberta se o caso se trata de uma auto sugestão ou de fato uma possessão. Ora, sabendo que a maioria da população em geral desconhece o latim, o sacerdote tem liberdade para orar ou mesmo interrogar o demônio. No caso de possessão, o indivíduo mesmo desconhecendo a língua, compreende o que é falado e inclusive responde ao padre. Neste ponto se torna inequívoco se tratar de uma possessão.
O ritual pode acontecer em uma ou várias sessões, separadas por períodos de oração do próprio indivíduo: tudo depende do grau da manifestação.
Em casos de obsessão demoníaca, onde a influencia maligna é meramente sugestiva e não toma - de fato - posse da pessoa, a Igreja admite várias orações de libertação que podem ser realizadas por grupos carismáticos ou mesmo leigos que quiserem o bem do afetado: rezar nunca é prejudicial.
Embora tenha se tornado moda ultimamente, poucas pessoas sabem que a medalha de São Bento é um dos maiores símbolos exorcistas. De fato, foi pra este mesmo propósito que ela fora criada.

Ainda, é sempre válido lembrar que em se tratando de exorcismos, um trabalho meticuloso é realizado afim de que não se confunda uma patologia mental com possessão diabólica. De fato, recomenda-se exaustivos exames médicos e tratamentos para que, em último caso, na ineficácia da ciência e na presença da prudência e do discernimento de um sacerdote, possa se recorrer ao exorcismo.
Por isso mesmo, o ritual não é realizado amplamente por todos os sacerdotes, mas somente mediante autorização EXPRESSA do bispo local, autorização essa que só é concedida a homens extremamente prudentes e piedosos.
Medalha de São Bento: Aliado na luta contra o Mal.
Já vi várias vezes comentários do tipo: "Ah, se o capeta pode possuir um corpo, por que possui uma pessoa simples no meio do nada e não o Obama pra causar a terceira Guerra Mundial?"
Pois bem, a resposta é simples: o Diabo não possui à seu bel prazer.
Como vimos, tanto anjos como humanos têm liberdades para escolher seus caminhos, o que naturalmente leva esses caminhos a se cruzarem, eventualmente. Assim, a influência demoníaca no mundo seria evidente, mas apenas como mera sugestão. No silêncio.
No entanto, casos de possessão ocorrem precisamente quando Deus OBRIGA os demônios a se revelarem enquanto tal. É dito que Seus desígnios atuam assim para que as pessoas possam ver por si mesmas que existe um mal atuante ao qual devemos nos opor. Não é vantagem para nenhum demônio se revelar, isso comprova a espiritualidade à pessoas que nela não creem. Como diz uma frase famosa: "O maior triunfo do Diabo foi fazer com que não acreditassem em sua existência"
Aparecer atuante em um corpo já constitui para ele uma derrota, pois o possuído e todos a sua volta irão tomar medidas para uma vida bem mais virtuosa dali pra frente.
Agora, ao relato:


O relato se refere ao ritual ministrado pelo padre Fortea junto a jornalistas do jornal espanhol El Mundo:

O correspondente religioso de EL MUNDO vai, incrédulo, ao exorcismo que um sacerdote autorizado pelo Vaticano irá realizar. Mas fica comovido ao ver o que acontece com a jovem possuída pelo diabo

-"Hic est dies" (este é o dia), diz o exorcista com o crucifixo na mão.
-Não, responde uma voz rouca de homem que sai da garganta da possessa, uma bela menina de 20 anos.
-"Exi nunc, Zabulon", (saia agora, Zabulon), repete o sacerdote.
-No.
-Por que não quer sair?
-Para servir de testemunho.
-De testemunho de que?
-De que Satanás existe.
Corta-se a tensão no ambiente de penumbra da capela. Satán lutando contra Deus. Uma batalha à qual assisto atônito e em primeira fila pela primeira vez em minha vida. "Esta deve ser a razão pela qual me
convidou a presenciar o exorcismo. O diabo quer publicidade", penso no meio do choque. Minha mente gira a toda velocidade. Estamos no clímax de um ritual que, até agora, não encaixa em meus esquemas. E isso porque no seminário os padres seguiram alimentando meu medo infantil do Maligno, sempre disposto a tomar pose de uma alma. Depois do Concílio Vaticano II, o dogma da existência do diabo passou a ser uma "parte vergonhosa da doutrina" e, como tantos outros católicos, também eu prescindi dela.
O exorcista, José Antonio Fortea, pároco de Nossa Senhora de Zulema, está exausto. E isso por que tem apenas 33 anos. Mas está a mais de uma hora lutando, crucifixo empunhado, contra Satanás. Marta (nome fictício da possessa), ao contrário, está tão fresca como no princípio e não deixa de rugir, bufar, revolver-se e agitar seu corpo como uma massa. Com uma força inusitada para uma menina de 20 anos, ainda mais miúda e de traços doces. São 12h30 de um dia qualquer e estou ha uma hora e meia presenciando um exorcismo.
Um par de dias antes, recebi em meu celular uma ligação especial. Especial não por ser de um padre (recebo muitas), mas por ser de um exorcista católico (há um par deles na Espanha) que costumam manter-se muito afastados dos jornalistas. Quer me convidar a presenciar um exorcismo. Fiquei como uma pedra. Assistir a um exorcismo oficiado por um sacerdote autorizado pelo Vaticano é a sorte grande para alguém especializado em informação religiosa. Até esse momento e apesar de levar mais de 20 anos na profissão, o único que tinha conseguido foi entrevistar o exorcista oficial de Roma, o padre Gabriel Amorth. Já então, ao me dedicar seu livro havia escrito: "A José Manuel, com minha gratidão e com a advertência de não ter jamais medo do diabo".
Confesso que por medo decidi devolver o telefonema de parte Fortea e pedir que deixasse vir comigo um companheiro da agência EFE, também especialista em informação religiosa. Aceitou. Nervosos, no dia indicado fomos em carro até a diocese de Alcalá. Era um dia radiante. Chegamos à paróquia com muita apreensão. Questão de preparar-se psicologicamente. Pelo caminho, brincadeiras e nervosismo. O exorcista nos havia citado em sua paróquia, uma igreja moderna, de ladrilho vermelho, situada entre pinheiros. O interior, simples e limpo. Com um mesa e uma grande cruz no meio. Em um lateral, a pia de água benta com uma inscrição: "A água benta afasta a tentação do demônio".
Às 10h30, o exorcista sai do templo e vem a nosso encontro. É alto e magro. Usa bigodes e uma barba recortada. Seu aspecto é imponente. Talvez, por relacioná-lo com sua profissão de expulsador de demônios. Embutido em uma sotaina de um negro imaculado, seu rosto esbranquiçado e sua cabeça calva ressaltam ainda mais. Convida-nos a dar um passeio para nos explicar o caso.

                                                                                     Sete demônios

"Não sou nenhum “showman” nem quero publicidade. Se estão aqui é porque preciso de sua presença para libertar a menina. Têm que ser muito prudentes. Não podem dar pista alguma que permita a identificação nem da menina nem de sua mãe. Preferiria que também não me nomeassem, mas aceito esse sacrifício em vistas de uma maior credibilidade. Mas apenas Deus sabe o quanto me custa e os problemas que isso pode me causar. E não tenham medo. Com vocês não acontecerá nada".Insiste na seriedade do tema. Assegura que no Antigo Testamento aparece 18 vezes a palavra Satã. E no Novo Testamento, 35 vezes a palavra diabo e 21 a palavra demônio. O próprio Jesus fez muitos exorcismos ou o que os Evangelhos chamam "expulsar demônios". Fortea recorda também que João Paulo II realizou pelo menos três exorcismos reconhecidos e adverte que a crença no diabo constitui um dos poucos traços comuns à praticamente todas as religiões. "É o ponto ecumênico por excelência". Aproveita para fazer um pequeno repasso pelas diversas religiões e épocas históricas e as diversas teorias. Continuo me mostrando incrédulo. Tenho da sensação de que se trata de nos condicionar buscando justificações na História.
Para fazê-lo colocar os pés no chão, perguntamos detalhes do caso. Nos conta que se trata de uma menina possuída por sete demônios. Que já expulsou seis, mas que o último ainda resiste. "Chama-se Zabulon, é um diabo quase mudo, mas muito inteligente. Seu nome já aparece na Bíblia. O chefe sempre fica para o final. Estou já há 16 sessões e ainda não consegui expulsa-lo, quando nos casos mais normais, basta apenas três". Não quer dar mais detalhes da endemoniada. Diz apenas que virá acompanhada por sua mãe, "que é uma santa", e que a possessão deveu-se a um feitiço que lhe fez uma companheira de instituto, aos 16 anos. "Em uma das primeiras sessões perguntei-lhe como havia entrado e me respondeu um nome que eu não conhecia. Sua mãe me disse que era uma companheira de classe, que havia invocado Satã para fazer um feitiço de morte contra ela. E de fato, primeiro esteve gravíssima e a ponto de morrer. Uma vez curada, começaram os fenômenos raros". Desde então, sua mãe começa a detectar coisas estranhas em sua filha: móveis que se movem, objetos que se quebram e, principalmente, uma aversão especial aos objetos religiosos, quando era uma menina de ir à missa dominical. Até que um dia, de noite, ouve ruídos estranhos, se levanta e, quando abre a porta do quarto de sua filha, a vê sobre a cama levitando.
Como não quer perder sua única filha, começa a procurar remédios. Fala com o pároco, que a remete a dois famosos psiquiatras. Mas ambos diagnosticam que a menina é absolutamente normal. Nenhuma explicação científica para as constantes dores de cabeça que torturam sua filha. E então, Maria (nome fictício da mãe), a seus 60 anos, se lança à busca de um exorcista. Percorre quase todas as dioceses espanholas. Nenhum bispo quer saber nada de seu caso. Está já disposta a mudar-se com ela para a Itália para ver o padre Amorth, quando lhe falam de um exorcista espanhol que acaba de sair na televisão porque publicou um livro, Demoniacum, sobre os exorcismos.
Neste instante vemos chegar um táxi. "São elas", diz Fortea. Maria, a mãe, é pequena, magra. Seu olhar é todo dor: "Acredito em Deus e sei que, cedo ou tarde, libertará minha filha das garras de Zabulon. Estou há cinco anos neste calvário. Ninguém da minha família sabe. Nem meus irmãos", confessa. Maria é viúva e, cada vez que sai de sua casa para o encontro com o exorcista (praticamente, uma sessão por semana), tem que inventar alguma desculpa. "Não entenderiam e não quero que minha filha fique marcada para sempre".
O ritual
A seu lado, Marta sorri timidamente. Pequena, de grandes olhos negros, um pouco tristes, tem a cara marcada de uma adolescência. Cabelo negro, preso em um rabo. Os lábios grossos e sem pintar, embora contraídos quase com uma careta de dor. Usa jeans, uma blusa azul celeste de manga curta e gola alta e sapatos negros. É bonita. Seus olhos chamam a atenção, mas mais que timidez causam medo, muito medo. Parece uma menina normal que, nos conta, estuda Matemática na Universidade. "É impossível que esteja possessa", penso comigo mesmo.
O padre Fortea abre a capela, abaixo de sua paróquia onde diz a missa diariamente, e volta a fechar com chave por dentro. É pequena, acolhedora. Dentro, penumbra e silêncio absoluto. Fora, um sol radiante. O exorcista pede ajuda para transportar um colchonete forrado de plástico verde, grande e pesado, para coloca-lo ao pé do altar.
A capela, retangular, terá 25 metros quadrados. Sem janelas. No centro, um altar enorme. Em cima da toalha branca e seis velas acesas, sob uma grande Cruz da Trindade, apenas iluminada pela luz mortiça de um alógeno. Ao fundo, a imagem de um Pantocrátor iluminado e o Santíssimo. Em um lateral, uma imagem da Virgem com o Manino nos braços.
Entrando na capela, mãe e filha se preparam para o ritual. Marta coloca meias brancas, enquanto a mãe tira do bolso um terço, um crucifixo de 15 centímetros e uma estampa da Virgem de Fátima, e os coloca ao lado do colchonete. Trato de registrar o mais mínimo detalhe em minha mente. Sigo pensando que assisto a uma montagem. Marta deita no colchonete, olhando a cruz. Maria se ajoelha do seu lado, uma postura que não abandonará durante as seguintes duas horas e meia. O padre Fortea reza um momento de joelhos, tira a sotaina, bebe água e fica do outro lado do colchonete mais afastado do altar.
Pressinto que o ritual vai começar. Sento, com expectativa, no banco. O exorcista estende sua mão direita e a impõe sobre o rosto da jovem, sem tocá-la.Em seguida, fecha os olhos, abaixa a cabeça e sussurra várias vezes uma prece ininteligível. Um alarido desgarrador, o primeiro, quebra o silêncio da capela, penetra em minha alma e me arrepia. Não é humano. É um guincho assustador e profundo que sai da garganta de Marta. Mas não pode ser ela. Não é seu tom de voz. É rouco e masculino. O padre Fortea continua rezando e os rugidos se repetem. Pouco a pouco, o corpo da jovem se estremece vivamente. Sua cabeça se move de um lado a outro com lentidão no princípio, com inusitada rapidez depois.
"Sai, Zabulon"
Com a salmodia do exorcista, a jovem geme e se retorce sem parar. Num instante, o gemido se converte em
O padre Fortea assegura que não há o que temer. Deus sempre está conosco
rugido assustador, altíssimo, furioso. O exorcista acaba de colocar o crucifixo sobre seu ventre e em seu peito, enquanto a asperge com água benta. Chuta com tanta fúria que o crucifixo cai e a mãe o pega e uma e outra vez volta a colocar novamente, enquanto aproxima o terço que Marta atira longe, com fúria. Parece se tranqüilizar um pouco, mas imediatamente volta a rugir. Não há um momento de descanso. O padre Fortea acaba de invocar a São Jorge e, ao ouvi-lo, a jovem grita, bufa, colocas os olhos totalmente em branco, arquea o corpo e se levanta toda a um palmo do colchão. Não consigo acreditar.
-Beija o crucifixo, diz o exorcista.
-Não.
-Jesus é Rei.
-Assididididaj.
-Sequaz de Satanás, estás nas trevas.
-Assididididaj
-Estás fazendo muito bem. Por tua culpa, muita gente vai crer em Deus.
-Não.
-Sai, Zabulon, eu te ordeno em nome de Cristo. A condenação eterna está a sua espera. Não há salvação para ti.
Enquanto o padre Fortea continua ameaçando Zabulon, as mãos da jovem vão se transformando. São como garras. O exorcista reforça suas preces e suas exortações: "Hoje é o dia. Sai, Zabulon. Sai desta criatura em nome de Deus". A jovem se desata em tremores. Os gritos se elevam até o espanto. E com voz rouca diz: "Assassinos". É então que o padre Fortea lhe pergunta porque não sai e Zabulon lhe responde: "Para que as pessoas acreditem em Satanás".
Esgotado, após uma hora e meia de luta, o exorcista se levanta e sai da capela. Isto não pode ser uma impostura nem uma montagem. É preciso muita coragem para dedicar-se a isso. E menos mal que os casos de possessão, segundo conta depois o padre Fortea, são muito poucos. Ele está há cinco anos exercendo e teve apenas quatro na Espanha. Mas, enquanto preparava sua tese, assistiu a outros 13 exorcismos. Nota-se que tem prática: manda, ameaça, insiste e, com voz suave, mas enérgica, tortura o diabo sem piedade. Com o que mais lhe dói. Sempre em nome de Deus. Não parece ter medo algum. E isso que já sabe o que é ser atacado por Satanás. Uma vez, em um exorcismo, diz que o diabo lhe fez sentir a mesma sensação e a mesma dor do que leva uma punhalada no braço.
Fortea sai da capela e meu coração acelera, pensando o que pode ocorrer agora sem a presença tranqüilizadora do exorcista. Mas não acontece nada. Ou sim. Maria, a mãe, pega o livro do rito e começa a repetir as mesmas ou parecidas frases do exorcista. Com calma, mas com decisão, parece não se dirigir a sua filha, mas ao Maligno que a possui:

-Em nome de Cristo te ordeno sair.
-Não.
-Abre os olhos e olha a Virgem, encrespa enquanto voltar o olhar sobre um postal da Virgem de Fátima.Mas, por toda resposta, obtém um grunhido. Então pega o crucifixo.
-É teu Criador, vês?
-Sim, diz a voz de além-tumba acompanhada de rugidos e grunhidos constantes.
-Olha, Zabulon, não resista. Sabes que é teu dia e tua hora. Chegou teu dia e tua hora.
-Nãããããooo...
-Por que resiste?
-Estou farto. Já te disse muitas vezes.
-Diga a esses senhores por que não te vais.
-Uhhhh.
-Diga-o claramente.
-Não quero.
-Diga-o em nome de Cristo
-Para que creiam em Satanás.
-São Jorge, vem. São Jorge, vem. Vem, São Jorge. Sai dela "São Jorge". (o padre se engana em meio às repetições e ao invés de dizer "Sai dela Zabulon" acaba repetindo o nome do santo)
A possessa pára um segundo, sorri e diz, com deboche:
-Sai são Jorge...
Aproveita o erro da improvisada exorcista e fará o mesmo, logo depois, com um pequeno equívoco do padre Fortea. Mas Maria não se dá por vencida. É uma autêntica Dolorosa ao pé da cruz de sua filha possuída. Sinto tanta pena que também me ajoelho e, entre lágrimas, suplico a Deus (em voz baixa, não me atrevo a intervir mais diretamente) que, pelo que mais queira, liberte Marta. Meu companheiro faz o mesmo. Fazia tempo que não rezava com tanto fervor.
Então entra de novo o exorcista, pega uma caixinha com hóstias consagradas do sacrário e se coloca diante da jovem:
-Veja o Rei dos Reis e ajoelha-te diante dEle.
-Não.
-Servo desobediente e rebelde, ajoelha-te, repete o padre Fortea, exibindo a hóstia consagrada.
-Assassino, deixa-me.
-São Jorge, faz com que se ajoelhe.
E como rapidamente, com a menção de são Jorge, a possessa se ajoelha e o padre Fortea faz com que abra a boca e receba a sagrada comunhão. E continua torturando o diabo que está em Marta. Após dar a comunhão, pega uma Bíblia e recita o Apocalipse: "Então o diabo foi arrojado à língua de fogo e enxofre... ali será atormentados dia e noite pelos séculos dos séculos". E faz o diabo repetir frase por frase.
-Repete: Quanto mais teria me valido seguir a luz.
-Quanto-mais-teria-me -valido-seguir-a-luz, repete entre dentes e arrastando cada palavra.
E assim durante um longo tempo. O exorcista parece um professor que ensina uma criança rebelde, que repete à força entre bufos e alaridos, frases como estas: "Senhor, tu és Rei. Eu sou tua criatura. Nada escapa de teu poder. És o Alfa e Omega..."
-Já chega. Estou me cansando, grunhe.
Mas o padre Fortea persiste em acosso, pega um banquinho e se sente diante da possessa com um crucifixo na mão. "Hic est dies", repete com força. Por um momento, creio que vai conseguir.
-Quanto mais demores em sair, mais gente crerá em Deus. És um pregador de Deus. Aproxima-te, senta-te e beija Cristo crucificado. Dai-lhe um beijo de respeito e homenagem.
Como zumbi, Marta se senta e se aproxima da cruz. Tem os olhos em branco e a boca espumando, mas beija o crucifixo. Então Fortea a segura suavemente por um braço, a faz levantar a obriga a percorrer a capela e a beijar a Virgem e o Sacrário.
-Aquí está Deus. Repete sete vezes: Iesus, lux mundi. A possessa repete, mas ao terminar lança um olhar como de fogo e diz:
-Assassino, deixa-me, não posso mais. Mas o exorcista continua mais um tempo.
Passou uma hora. Fortea pára um pouco. "Agora a senhora", diz à mãe. E sai da capela. E Maria se inclina sobre sua filha e começa a repreender Zabulón:
-Tens que deixar esta criatura. Pelo sangue de Cristo, deixe-a. Seus anjos estão com ela. Vêm os três arcanjos. A Virgem vai te esmagar a cabeça...
Zabulón continua bufando e se retorcendo, mas não parece disposto a ir embora. Novamente entra o padre Fortea:
-Não temes a sentença de Deus?
-Sei qual é, grita desgarrada.
Sozinhos com a endemoniada
A invocação do nome de São João Paulo II também tem sido uma
poderosa intercessão no combate contra os demônios.
O padre Fortea olha a mãe: "Não se vá. Deixemo-los por hoje". Levanta-se e vai. Os gritos se detêm em seco. Noto certa decepção no rosto de Maria. Deu-me a sensação de que esperava que fosse hoje. Passou quase três horas de joelho, mas em sua cara não há sinais e cansaço, apenas de certa desilusão. Recolhe com paciência a imagem da Virgem e o crucifixo e sai da capela. Meu companheiro e eu ficamos sozinhos com a endemoniada. Alguns segundos que se fazem eternos. Ficamos grudados no banco, sem respiração. De repente, volta-se para nós, abre os olhos (que manteve em branco durante três horas) e nos lança um olhar que não esquecerei enquanto eu viver. Seus olhos são de outro mundo. Nunca vi algo assim em minha vida. Ao mesmo instante, o olhar volta a ser o de Marta, que nos sorri, levanta-se com tranqüilidade, senta-se no banco e tira as meias brancas que dobra com muito cuidado. Noto que apenas transpira, apesar das três horas de exercício contínuo. Coloca os brincos e volta a sorrir.
-Como está?
-Cansada
-Sabe o que aconteceu?
-Não, não lembro. E enquanto nos fala, pega a estampa e o crucifixo, os que um instante atrás tanto odiava, e os beija com carinho.
- Sente dor de garganta?
-Não.
E sua voz é tão suave como quando chegou. Ninguém diria que por essa mesma garganta saíram guinchos durantes três horas.
-Sabes por que está aqui?
-Sim, isso eu sei. Sei que tenho...
Não termina a frase. Respeitamos seu silêncio. Saímos e nos sentamos em uma sala contígua os cinco. Marta está tranquila. Volta a ser a menina tímida de antes.
"Todas as noites", nos conta Maria, "antes de me deitar pego o crucifixo, do qual nunca me separo, e abençôo o meu quarto: "Em nome de Deus, maus espíritos saiam deste quarto. E ela, antes de se deitar, sempre me pergunta: "Mãe, já abençoou o quarto?"" Mas mesmo assim sente medo. Como quando as mãos de sua filha se tornaram garras ao tocar a cruz ou quando a persignei com os dedos abertos, em forma de chifres, para crava-los nos olhos."Sempre ameaças que, afortunadamente, nunca cumprem".
E antes de se despedir, repete uma súplica: "Que os bispos e as pessoas se conscientizem. Que tenha muito mais exorcistas". Abraça sua filha, as duas sobem no carro do padre Fortea e vão embora. Marta volta-se e nos olha. Seus olhos são o grito de angústia do escravo acorrentado. O padre Fortea fica de me ligar quando ocorrer a libertação definitiva.
Rezo por Marta e por sua mãe. O que vi não é uma montagem.
Assim é Zabulon
"Não fala muito, mas é muito inteligente". Assim descreve o padre Fortea a Zabulon, o inimigo contra o qual vem lutando há sete meses. No princípio, o padre Fortea pensou simplesmente que assim se chamava o décimo filho de Jacó e Lia, sua mulher. Depois, investigando um pouco mais, deu-se conta de que estava lidando com um dos demônios mais poderosos do inferno.
Apareceu apenas três vezes na História. A primeira, em Ludón (França), no século XVI. Quase todas as freiras de um convento ficaram possuídas por uma multidão de diabos, que as atormentavam sem cessar. O chefe era Zabulon. A segunda, foi nos anos 50, em um caso de exorcismo realizado pelo padre Cândido, o exorcista italiano mestre do padre Amorth. E agora, voltou a aparecer.

Como se vê, o exorcismo é um ritual que compreende às vezes várias sessões, durante anos. Muitas vezes, não acontece nada de extraordinário, tornando-se rituais extremamente monótonos, como o próprio padre Fortea relata. Não existe uma regra, existe a oração e a piedade, atuando para libertar os aflitos.

Num primeiro momento era minha intenção pôr mais de um relato, mas dos relatos possíveis de se comprovar veracidade não encontrei nenhum que fugisse aos moldes desse, não acrescentando portanto, nada em sua leitura. Leiam. Reflitam.

Há mais nesse mundo que nossos olhos podem ver, disso tenho certeza.
Mas não temam absolutamente nada! Deus é supremo. Sua Santa Mãe é superior ao mal e sempre nos acolherá!

Abraços,

Pax Domini..

* Pra quem não curtiu o tema, relaxem. No próximo post voltaremos aos temas políticos hhahahahhahaha.


A Gênese do Mal: diálogo com um exorcista - Parte 2



Continuando nossa conversa sobre o mal, agora em mais nove perguntas...


2. Por que Deus não suspendeu a Liberdade (dos anjos) ao ver que começavam a pecar?

Por que Deus não retira a Liberdade ao ver que alguém se encaminha para o Mal? Não o faz mesmo, pois isso significaria apostar que tal espírito estaria fadado, irremediavelmente, a cair sob o Mal. Permitir-lhe continuar fazendo o Mal supõe oferecer-lhe a chance de retornar ao Bem. Retirar-lhe a prova faria com que cometesse menos pecados, mas, então, o espírito que tivesse sido salvo da prova se petrificaria para sempre no pecado daquele exato momento, para sempre. Possibilitar que o Mal siga fazendo o Mal lhe dá a oportunidade de retroceder.

 Ademais há de se convir que Deus não pode se contradizer. Se Ele lhes concedeu a liberdade, não pode cerceá-la de forma alguma.

3. São iguais todos os demônios?

Já vimos que cada demônio pecou com uma intensidade determinada. Além disso, cada demônio pecou em um ou mais pecados específicos. A rebelião teve origem na soberba [ou orgulho]. Mas, dessa raiz de pecados, nasceram outros tantos pecados. Durante os rituais de exorcismo, isso fica muito claro: há demônios que pecam mais em Ira, outros mais em sua egolatria, e ainda outros por desespero, etc. Cada demônio tem, de forma análoga aos seres humanos, sua psicologia, sua forma particular de ser. Há aqueles que são mais eloquentes, outros mais dados a bravatas e galhardias. Em uns, brilha de forma especial a soberba e, em outros, o ódio. Ainda que todos tenham se separado de Deus, uns são piores que outros em maldade [contumácia no Mal].
(...)
 Algo que fora comprovado através dos exorcismos é que, entre eles, há uma supremacia dos superiores sobre os inferiores. Em que consiste tal poder? É impossível sabê-lo, pois não se sabe como um demônio [por isso mesmo, feito livre] pode obrigar outro a fazer algo, pois não há corpo para ser compelido ou coagido. Não obstante, pude comprovar que um demônio superior pode proibir um inferior de sair de um corpo durante um exorcismo. Ainda que o demônio inferior esteja sofrendo e queira sair, o superior pode impedir-lhe. Como um demônio pode obrigar outro a fazer algo [ou proibi-lo], sendo este imaterial, repito, continua sendo um problema que escapa à nossa compreensão.



Pode ser explicado talvez devido à natureza predecessora, de quando ainda eram anjos. Costuma-se assumir que os anjos se reagrupavam em nove coros distintos em qualidades e funções. Com suas quedas, seus antigos predicados poderiam ter sido elevados ao nível de "status" por suas soberbas, afim de sustentar seus egos. Tais status se constituiriam em uma ordem de tirania de uns sobre outros.


4. Em que pensa um demônio?

Todo anjo decaído conserva a inteligência própria de sua natureza angélica e, com ela, segue tomando conhecimento de todas as coisas. Conhece e indaga, com sua mente, acerca do mundo material e espiritual, dos planos real e conceitual. Sendo ser espiritual, eminentemente intelectual, não há dúvidas de que está constantemente afeito às questões intelectuais. Ele sabe muito bem que a Filosofia é a mais elevada das ciências.
(...)
Mas, o demônio não está sempre, em cada instante, sofrendo. Muitas, vezes, simplesmente, pensa. Sofre apenas em certos momentos, quando se dá conta [da ideia] de Deus, quando volta a se certificar de sua condição miserável, de sua separação de Deus, quando reverbera o remorso em sua Consciência.
Há “tempos” em que sofre mais ou menos; seu sofrimento não é uniforme. Ainda mais: a intensidade que
marca a deformidade moral de cada demônio determina as variações de seu sofrimento e remorso.
Seria bastante horrível [e doentio] pensar nos demônios como seres permanentemente em sofrimento, em cada instante e momento. A separação de Deus produz sofrimento por toda a eternidade, mas é o pesar por tal afastamento e não um instrumento sádico de tortura, trabalhando dia e noite, que o faz sofrer. O demônio nem está sempre empenhado em tentações [contra os seres humanos] nem está sempre retorcendo-se em dores espirituais indizíveis [como creem algumas pessoas desequilibradas].


5. Onde estão os demônios?

Tanto as almas dos condenados como as dos demônios não podem deslocar-se para outros locais do espaço; tampouco, se pode dizer que estão em outra dimensão. Quê significa estar ou não estar em outra dimensão, para um espírito? Simplesmente, não estão em lugar algum! Existem, mas não estão nem aqui nem
acolá.
Diz-se que um demônio está em um local quando atua nesse local. Se um demônio está a tentar alguém aqui, diz-se que ele está aqui. Se um demônio se apodera de um corpo ali, da mesma forma diz-se que está ali. Se um demônio move uma cadeira num fenômeno do tipo poltergeist, diz-se que ele está realmente em tal lugar. Mas, na realidade, não está ali, mas apenas atuando ali [através da tríade Pensamento-Vontade-Ação].
O Inferno, o Céu e o purgatório são estados. Apenas depois da ressurreição dos corpos dos condenados, aí sim estarão em um local determinado e fixo [eterno], e por isso mesmo que só a partir daí é que o Inferno se tornará em um local concreto. Os corpos dos bem-aventurados também ocuparão lugar. Por isso, diz-se na Bíblia que João viu “um novo céu e uma nova terra” (Ap 21, 1)


6. Por que Deus permite a tentação?

Se Deus não tenta, por que permite a tentação? Encontramos a resposta para tal pergunta no versículo seguinte:
“Considerai que é suma alegria, meus irmãos,
quando passais por diversas provações,
sabendo que a prova da vossa fé produz a paciência.”
(Tg 1, 2.3)
Sem a tentação, não subsistiria essa constância na virtude que nos permite resistir sempre mais à tentação sedutora. Em outras palavras, há certas virtudes que jamais aflorariam sem que pudéssemos ser submetidos à tentação. E mais: quanto mais dura for a prova, mais brilhará a luz de tal virtude ao sobrepujar a essa tentação.
Isto nos leva à seguinte constatação: Deus poderia ter interditado os demônios de modo a nunca interferir na história humana. Mas, Deus sabia que, apesar de os demônios serem a causa dos males, propiciariam ocasiões de grandes maravilhas ao darem vez a um maior valor para as virtudes conquistadas. De certo modo, poderíamos admitir que Deus aceitou a possibilidade de surgirem maiores Trevas se, com isso, se obtivesse uma Luz mais pura e (verdadeiramente) luminosa. Do contrário, bastaria uma simples ordem de Deus para que nem sequer um só demônio pudesse ter entrado em contato com um ser humano. Assim, se Deus permitiu tal contato, é porque dele poderiam advir um Bem maior.



7. É possível fazer um pacto com o Demônio?

As pessoas se acostumaram a pensar que os pactos com demônios existem apenas na literatura [ou cinema]. Enganam-se! Há pessoas que, conscientemente e a despeito de todas as advertências, fazem pactos com o Demônio e lhe entregam suas almas a fim de conseguir certas coisas nesta mesma vida. A ideia de um pacto formal com o Demônio surge, primeiramente, no século V, através de escritos de São Jerônimo. Este padre da Igreja nos conta como um jovem, para ser aceito por uma certa bela mulher, foi a um bruxo, o qual lhe exigiu, como preço por seus serviços, renunciar a Cristo por [um contrato] escrito. Tivemos, no século VI, a aparição de mais um pacto deste tipo na lenda de Teófilo, o qual aceita ser um servo do Diabo e firma um pacto formal. Esta lenda se difundiu pela Europa na Idade Média.
É possível um pacto com o Demônio? Claro que alguém pode firmar um papel, mas não o levará para apresentá-lo ao Demônio, nem para lhe entregar o papel nem para reconhecê-lo. Quando se faz um pacto deste tipo, sempre espera-se que alguém apareça, mas é ele mesmo que tem de escrever os termos [do contrato], e mesmo assim ninguém aparece quando é firmado o pacto, já que ele mesmo permanece com o papel nas mãos. (...)
Conheci pessoalmente duas pessoas que fizeram um pacto [com o Diabo] e, sinceramente, seus níveis de vida eram piores, inclusive, que o meu. No âmbito carnal, o Diabo tampouco parece ter sido generoso com ambos. Isso se deve ao fato de o Diabo não ser Deus e não poder dar sempre o que quer.
 Contudo, ao arrepender-se, o pacto torna-se inócuo como um papel molhado pela chuva, sejam quais forem seus termos precedentes. Inclusive, ainda que haja cláusula excludente de arrependimento, a mesma se torna nula diante de uma Vontade consciente. Deus, ainda que nos tenha dado a liberdade de fazer o que quisermos, não nos permitiu usar a liberdade para renunciar à mesma liberdade.
Muitos pensam que o Diabo pode nos dar o triunfo nos negócios ou em nossa profissão. Mas, a Razão pela qual o Diabo não pode conceder nem sequer isso a seus servos é que o sucesso de uma empresa ou em uma profissão depende de uma cadeia de muitas causas e fatores. O Demônio pode apenas tentar. Assim, por exemplo, pode tentar a um chefe para que escolha um tal empregado ao invés de um outro. Mas, a tentação se pode superar. Portanto, nem essa coisa tão simples o Demônio garanta, com certeza, que aconteça.
O grande poder de um pacto com o Demônio é fazer uma pessoa pensar que já está condenada [tendo pecado uma vez], faça o que fizer, de bom ou mal. Dá trabalho fazer uma pessoa, que tenha feito tal trato, entender que continua sendo tão livre como antes.

8. Com que forma os demônios se apresentam à visão dos homens?

Os demônios não possuem uma forma visível determinada, sua forma é imaterial. Portanto, se se manifestarem em forma visível, o farão mediante a aparência que desejarem. Qualquer forma, por mais bela que seja, humana ou angélica, está dentro das capacidades demoníacas. Poderiam aparecer como uma padre conhecido, de nosso confessor ou mesmo do Santo Padre. Para que nos fique claro, somos como crianças ao lado deles, diferindo eles de nós apenas por seu caráter maléfico.
(...)
Quando dizemos que Satanás é um dragão ou uma serpente, queremos significar que ele tem caráter monstruoso, selvagem, peçonhento e astuto desses seres. Mas, não que tenha em algum caso essa
aparência, já que segue sendo um belo anjo por sua natureza, ainda que repugnante em seu aspecto moral. A deformação que Satanás sofreu foi em sua essência, não em sua natureza. Seu ser interior se degenerou, mas sua natureza permanece permanecerá intacta, faça o que fizer. Dado que ambas as coisas são indissociáveis, ele verdadeiramente é um monstro, um ser deformado que causa repugnância e aversão.



9. Por que, na Bíblia, Deus chama o Diabo de “Príncipe deste mundo”?

Em certas casos, a Bíblia usa expressões para se referir ao Diabo que podem parecer exageradas. No entanto, todo o Livro Sagrado está perfeitamente medido. Deus é o Dominus (Senhor) e o Rex (Rei), estando estes dois termos reservados [somente] a Deus nas Sagradas Escrituras. Há apenas um Rei e um único Senhor. Ou seja, há apenas um detentor de todo o Poder e um único detentor de todos os direitos.
Deus é o Rei, enquanto o Diabo é o princeps (príncipe). Esta palavra, em latim, expressa a ideia daquele que “é o primeiro, o que está no lugar mais importante, o maioral entre os principais”. Existe uma extensa Tradição, que remonta aos Santos Padres, que ensina que o Diabo, antes de rebelar-se (contra Deus), era o mais belo e poderoso de todos os seres angélicos (anjos). Mesmo sendo extrabíblica esta Tradição, há certos versículos que, de forma subliminar, estariam de acordo com ela. Assim, por exemplo, as Sagradas Escrituras, ao denominar o Diabo de Príncipe deste mundo está, sem dúvidas, dizendo que ele é o mais poderoso deste mundo.


10. Deus pode perdoar os demônios?

Deus pode perdoar qualquer pecado, por mais grave que seja. Mas Deus não pode perdoar um demônio. Porque Deus não pode perdoar quem não se arrepende [nem quer se arrepender] de seu pecado. Fazer tal coisa provocaria uma desordem não só conceitual, mas também prática, e Deus não pode propugnar desordens. Como se vê, o problema não está no pecado em si (Deus pode perdoar tudo, e o quer), mas na Vontade do pecador (Deus não pode cercear a Vontade livre).
Como já dito anteriormente, há muitas pessoas que pensam que Deus não deveria ser tão severo, perdoando os condenados. Mas, pela razão já aduzida, o mesmo Deus que pode criar milhões de mundos apenas com seu querer, não pode perdoar nem mesmo a um demônio sequer. Deus Onipotente, que pode tudo, não pode o impossível. E é-Lhe impossível criar uma Vontade livre para depois obriga-la a se arrepender [o que seria uma contradição, e Deus não se contradiz].




Para não sermos muitos extensos, logo menos eu venho com a terceira a última parte, com os relatos de exorcismos.

Pax Domini.

A Gênese do Mal: diálogo com um exorcista - Parte 1

Caríssimos, saudações!

Nessa calma madrugada de sexta para sábado, silenciosa e escura venho tratar de um tema diferente. ( Na verdade são 6:30 da manhã, mas comecei a redigir este post por volta de umas 3:00...por isso falei em madrugada hahahaha)
Enfim, hoje falaremos de um tema bem inusitado e controverso, mas que também tem de ser discutido: o Mal.
Uma pergunta que perpassa os séculos sendo interpretada das mais diversas formas.
Mas, afinal, o que é o mal? Qual seu fundamento? É substancial?

Vejamos...


Nos ensina o grande padre e pai de minha ordem, Santo Agostinho que o mal é ausência do bem. E, sendo eu um cristão católico, é com essa visão que também posso contribuir. A despeito das demais doutrinas filosóficas que pouco domino, vou centrar-me no mal não como um princípio, mas como um resultado de degradação. Não como uma força polarizada ao Bem, mas como um entrave às linhas da perfeição.
E para se falar de mal na cristandade, é preciso falar do demônio: para falar do demônio, é preciso recorrer a indivíduos que passaram suas vidas combatendo-o face a face: não com teoria ou retórica, mas com uma crueza que nem os mais céticos puderam até hoje explicar ou negar.
Para essa tarefa recorri ao padre exorcista José Fortea, a quem conheço por meio de suas obras sobre a natureza angélica e dos demônios.

Assim, neste post dividido em três partes (dada a dimensão do tema), intercalarei pensamentos meus aos do Padre José Antônio Fortea.

Antes de mais nada, uma pequena biografia:
Fortea é um padre espanhol, exorcista autorizado do Vaticano e considerado um dos maiores especialistas em demonologia do mundo na atualidade. É autor da maior obra sobre o tema, SVMMA DAEMONIACA, tida como referência para o assunto de exorcismos, inclusive entre clérigos. Atualmente o padre realiza seu doutorado em Roma e trabalha no seu próximo livro.

Há alguns dias, entrei em contato com o padre por e-mail, pedindo para que ele contribuísse com alguma catequese sobre o tema para o blog. A resposta não tardou e, extremamente atencioso e respeitoso, Fortea falou-me que estava realmente impossibilitado de realizar outras funções que não fossem dedicar-se ao término de seu próximo livro, estava tão ocupado que mal conseguia responder aos e-mails. E, convenhamos: estudar, escrever e ainda realizar exorcismos realmente devem tomar um baita tempo. Assim mesmo, Fortea me mandou sua bibliografia completa e disse para que eu utilizasse-a da forma que achasse melhor, afim de elucidar o tema. Bom, assim sendo, posso transcrever trechos do livro dele sem preocupações com direitos autorais. Aliás, sendo o padre - como eu disse - espanhol, as obras que me enviara também se apresentam na mesma língua. Assim, recorri à tradução informal de meu colega também blogueiro Ebrael Shaddai, a quem agradeço imensamente.

Dito tudo isso, fica meio sem sentido o título "diálogo com um exorcista", mas por falta de criatividade fica este título mesmo. Até porque, transcrevendo perguntas e respostas de seu livro, até ficará parecendo uma conversa informal.
As perguntas e respostas que aqui serão expostas integram o livro SVMMA DAEMONIACA - Tratado de Demonologia e Manual de Exorcistas. O livro tem tradução em português pela editora Paulus e pode ser adquirido em diversas lojas católicas ou através deste link!

Então vamos em frente...as posições do padre estarão em branco, enquanto as minhas em amarelo.
Nesta primeira parte, falaremos do "nascimento" do mal e do demônio, de acordo com as Sagradas Escrituras e a tradição católica, bem como por relatos dos próprios possessos - que mesmo em pessoas bem simples, confirmaram estes detalhes.


PARTE 1 - A Gênese do Mal



1. O que é um demônio?

"Demônio é um ser espiritual, de natureza angélica, condenado eternamente. NÃO tem corpo; NÃO existe em seu ser nenhum tipo de matéria sutil nem coisa alguma semelhante à matéria. Assim, [o demônio] tem uma existência de caráter inteiramente espiritual. Spiritus, em latim, significa “sopro, hálito”. (...)
"Os demônios não foram criados maus. (...) Eles mesmos se tornarão no que são. Ninguém os fez assim."
(FORTEA, 2012, p. 15)

Suprimi alguns pontos de maior valor teológico mas que iriam dificultar a leitura.
Pois bem, foram criados no princípio anjos: seres espirituais constituídos de vontade e consciência. Seres que teriam sido criados "à sombra" de Deus. Uso este termo e explico-o: os anjos viviam junto a Deus, mas não conheciam sua essência. Não conheciam porque não compreendiam. Diz o evangelista: "Deus é Amor". Só se compreende o amor na liberdade, na livre escolha. Assim, fora necessário que antes de verdadeiramente conhecerem a Deus, passassem por uma "prova". Um teste onde lhes seria dada a oportunidade de escolher estar junto a Deus, ou abandoná-lo para seguir numa existência a sua margem. Assim, demônios escolheram se tornar demônios. Escolheram separar-se de Deus.

Mas continuemos:


"Houve algumas fases na psicologia dos Anjos antes que se transformassem em demônios. Estas fases se deram fora do tempo material. Ocorreram no eon. Ocorrendo no éon, essas fases a nós, humanos, pareceriam ter sido quase instantâneas. Mas, para o que a nós pareceria tão breve, a eles foi como um século ou milênio.
As fases de transformação dos anjos [que desobedeceram] em demônios foram as seguintes:
No início, lhes penetrou a dúvida; a dúvida de que, talvez, a desobediência a Deus pudesse ser o melhor. No momento em que, espontaneamente, aceitaram a possibilidade de que a desobediência a Deus fosse uma opção a considerar, aí mesmo já pecaram. No princípio, essa aceitação da dúvida constituiria [apenas, embora não pouco] um pecado venial. Pouco a pouco, tal pecado venial evoluiu para o pecado grave. Mas, nesse ínterim, nenhum dos anjos em dúvida estava disposto a, irreversivelmente, afastar-se de Deus; nem sequer o Diabo. Posteriormente, quando foi se acomodando em suas inteligências aquilo que suas Vontades haviam escolhido, não obstante o ditame de suas inteligências, as quais os recordavam de que a desobediência [a Deus] era contra a razão [i.e., irracional].
Mas, suas Vontades se afastavam, mais e mais, de Deus.(...)
Finalmente, esse processo levou ao pecado mortal, que se deu em um momento concreto, por uma ato de Vontade. Ou seja, cada anjo [dos que desobedeceram] não apenas quis desobedecer, mas inclusive optou por ter uma existência à margem da Lei Divina. Não era mais somente um resfriamento do Amor a Deus; já não era uma desobediência menor a algo que lhes fosse difícil de aceitar. Na Vontade de muitos deles, surgiu a ideia de um destino separado da Trindade, um destino autônomo.
Aqueles que perseveraram neste pensamento e decisão, começaram um processo de justificação desta escolha; um processo em que trataram de se auto convencer de que Deus não era Deus, de que Deus era um espírito mal, de que podia ter sido seu Criador, mas que n’Ele havia erros, falhas. Começavam a flertar com a possibilidade que surgira em suas inteligências: uma existência apartada de Deus e de suas normas, que parecia ser mais livre. A normas de Deus, a obediência a Ele e à Sua Vontade tornaram-se para eles, pouco a pouco, coisas opressoras e pesadas. Deus passava a ser visto como tirano de quem deviam se libertar." (FORTEA, 2012 p. 17)

Este ponto é interessante. Filosoficamente falando, não basta negar uma ideia para se opor a ela. Há, na verdade, que se constituir toda uma nova linha de pensamento. Uma linha que siga a franca oposição da até então ordem vigente. Assim, ao se apartar de Deus, Lúcifer e os demais anjos teriam que escolher se tornar uma substância que em nada fosse similar a Deus. Se Deus era amor, Lúcifer se tornaria ódio. Se o Primeiro era bom, o segundo teria q se tornar mal. O desafio aí para Lúcifer era se tornar um paralelo a Deus. Criar em si um conceito que fosse diametralmente oposto a de seu Pai. Só assim conseguiria rivalizar com Ele. Opor-se a Ele.

"Esta nova fase de afastamento de Deus já não significava apenas buscar uma existência fora da Divindade, mas que Deus também passava a representar um empecilho grave à sua Liberdade. Pensavam que a beleza e felicidade do Mundo Angélico poderiam ser mais válidas sem um opressor. Por que havia um Espírito que se elevava acima dos demais espíritos e sua Vontade deveria ser imposta às dos outros? “Não somos crianças nem escravos”, deviam ter pensado.
Deus já não era mais um ser ao qual haviam dado as costas, mas lhes começava a converter-se no próprio Mal. Desde aí, começaram a odiá-lo As advertências divinas para que se voltassem para Ele eram consideradas [pelos anjos rebeldes] como intervenções inaceitáveis. Nesta fase, o ódio cresceu mais em uns [corações rebeldes] e menos em outros.
Pode nos surpreender a ideia de um anjo chegar a odiar a Deus. Mas, há que se entender que, para eles, Deus já não representava o Bem, senão um obstáculo, a opressão, as algemas dos mandamentos e a falta de liberdade. O ódio deles nasceu com a energia de suas Vontades resistindo, uma vez após outra, às chamadas de Deus que, como um Pai, os buscava. Podemos dizer, também, que o ódio [desses anjos] surgiu como reação lógica de uma Vontade que deve afirmar-se em sua decisão de abandonar a casa paterna, assim para usar um exemplo que nos seja mais compreensível. Quero dizer que alguém que se vai de casa, a princípio, simplesmente quer ir-se embora dali; mas, se seu Pai lhe chama uma ou outra vez para que retorne, o filho acaba fulminando seu pai, gritando: “Deixe-me em paz!”. Deus, então, os chamava, pois sabia que por quanto tempo mais suas Vontades estivessem afastadas d’Ele, mais eles tornar-se-iam certos [da decisão] de seu afastamento.
Obviamente, alguns anjos que se afastaram de Deus, num primeiro momento, [desertaram da rebelião e] acabaram por voltar ao seio de Deus. Esta foi a grande batalha nos Céus, da qual se fala em Apocalipse:


“E houve batalha no céu; Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão, e batalhavam o dragão e os seus anjos; mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou nos céus.
E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, chamada o Diabo, e Satanás, que engana todo o mundo; ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele"
(Apocalipse 12:7-9)




Como os anjos podem lutar entre si? Se não têm corpos, que armas podem ser usadas? Os anjos são seres espirituais; o único combate que podem travar entre si é de ordem intelectual. As únicas armas que podem brandir são os argumentos intelectuais. Essa luta [entre os anjos] foi um combate intelectual. Deus enviava a graça para que voltassem à fidelidade ou se mantivessem [firmes] nela. Os anjos [fiéis] ofereciam
argumentos aos [anjos] rebeldes para que retornassem à obediência. Os anjos rebeldes interpunham suas razões para fundamentar sua postura e para incitar a rebelião entre os [anjos] fiéis. E, nessa conversação entre as miríades incontáveis de anjos, houveram baixas [perdas] de ambos os lados: [alguns] anjos rebeldes regressaram à obediência; anjos fiéis foram convencidos pela sedução dos raciocínios malignos.
A transformação [dos anjos rebeldes] em demônios fora progressiva. (...) Cada um [dos anjos que se tornaram demônios] recebeu de Deus uma natureza, mas cada um deformou-se segundo seus próprios caminhos extraviados.
Por isso, a batalha findou quando cada um já estava encapsulado, por assim dizer, em sua condição irreversível. Chegou um momento em que só poderia haver mudanças acidentais em cada ser espiritual. Aos demônio, lhes chegou um instante em cada um se manteve firme em sua imprudência, em seu ciúme, ódio, inveja, soberba, egolatria...
A batalha havia acabado! Poderiam seguir discutindo, falando, disputando, exortando-se uns aos outros, por milhares de éons (eras), mas assim mesmo só haveria mudanças acidentais. Foi, então, quando os anjos foram admitidos na Presença Divina. Aos demônios, foi-lhes deixado que se afastassem definitivamente. Foram relegados à situação de prostração moral à qual cada um tinha se colocado.Como se pode deduzir, não é que os demônios tivessem sido enviados a um local trancado, com chamas eternas e aparatos de tortura, mas que são deixados como estão; são abandonados à sua própria liberdade e Vontade. Não foram levados a parte alguma. Os demônios não ocupam lugar; não há aonde pudessem ter sido levados. Não há aparatos de tortura nem chamas que lhes possam atormentar, ou mesmo correntes que lhes possam prender. Tampouco, os anjos fiéis não entraram em lugar algum. Simplesmente, receberam a graça da visão beatífica. Tanto o Céu dos Anjos como o Inferno dos Demônios são estados. Cada anjo leva em seu interior seu próprio Céu [ou santuário], esteja onde esteja [ou melhor, aja como aja, pense como pense]. Cada demônio, faça o que faça, leva dentro de si seu próprio Inferno." (FORTEA, 2012, p.20)

Relembro então duas coisas: a primeira, como já foi citado, os anjos que caíram tomaram sua forma de maneira definitiva. Isso porque, sendo criados de uma forma muito mais completa que nós, humanos, não possuem o álibi do pecado. Vejam, pecamos, nos arrependemos e somos perdoados. Mas tudo isso porque num primeiro momento não temos perfeita consciência do mal que fazemos com nosso erro. Quando tomamos tal consciência é que nos arrependemos. No entanto, anjos já foram criados com uma inteligência muito mais aguçada. Deste modo, quando tomam uma decisão, já estão perfeitamente cientes de suas implicações, e se a tomam mesmo assim, é de forma definitiva. A segunda coisa que recordo é que o Inferno não é um espaço, mas um Estado de espírito daqueles que se apartam do amor. Viver sem o amor é o suplício.

"O momento em que já não havia mais a “procura” [de Deus por seus anjos], é precisamente quando um anjo a Essência de Deus. Pois, depois de ver a Deus, nada mais lhe poderá fazer mudar de opinião. Depois de [alguém] ter visto a Deus, jamais poderá escolher [ou fazer] algo que lhe ofenda o mínimo que seja. Pois a inteligência compreenderia que seria escolher [ou melhor, considerar a opção] entre esterco e um tesouro. O pecado, depois desse momento, é impossível. O anjo, antes de adentrar ao Céu, compreendia a Deus, o que era e o que corroborava sua Santidade, Onipotência, Sabedoria, Amor, etc. Depois de ser admitido na contemplação de Sua Essência [a de Deus], não só compreende, mas então a vê. Ou seja, [não apenas conhece, mas] vê sua Santidade, Amor, Sabedoria, etc. O espírito, ao ver aquilo, se preenche de tal amor, de tal veneração, que jamais, sob qualquer hipótese, quer apartar-se d’Ele. Por isso, [então,] o pecado passa a ser impossível [para os anjos fiéis].
O demônio, no entanto, se torna irrevogavelmente preso ao que escolheu, desde o momento em que Deus [por sua Misericórdia], decide não insistir mais. Chega um tempo em que Deus decide não mais enviar graças para o arrependimento [dos anjos rebeldes]. Pois, cada graça de arrependimento só pode ser superada, vencida, afirmando-se [o anjo rebelde] ainda mais em seu ódio. Deus, então, que enviar mais graças só faria com que o Demônio confirmasse, com ainda mais força, o que sua Vontade escolheu [para si]. Eis o momento em que Deus-Amor dá as costas [ao Demônio], e deixa que seu filho siga seu próprio caminho. Deixa que o Demônio siga sua vida à parte [ou, como dizem por aí, deixa-o para que viva em paz...]." (FORTEA, 2012, p.21)

Interessante reparar que o maior atributo do amor é a liberdade. E Deus criou a todos com uma liberdade incondicional

"Os demônios aparecem deformados nas pinturas e esculturas antigas e modernas, sendo muito adequada essa forma de representá-los, pois seguem sendo espíritos angélicos, porém tendo sua Inteligência e Vontade deformadas. Fora nestes dois últimos itens, seguem sendo anjos tanto como quando foram criados. O demônio é, definitivamente, um anjo que decidiu seguir seu destino longe de Deus. É um anjo que quer viver livre, sem amarras. A solidão interior na qual se verá a si mesmo pelos séculos dos séculos, o ciúme que lhe afeta sabendo que os [anjos] fiéis gozam da Visão de um Ser Infinito, o leva a encarar, sempre e sempre, seu pecado. Se ele odeia a si mesmo, então odeia a Deus e a todos que lhe deram razões para exilar-se. (FORTEA, 2012, p.21)

Lembremos: eles não podem amar, não querem. Escolheram não amar e serem sozinhos, foi escolha de sua vontade.

" Mas, como dito acima, aqui e sempre adiante, deve-se entender essa deformação como espiritual, de sua Inteligência e Vontade.
A Inteligência está deformada, obscurecida, pelas mesmíssimas razões com as quais cada um justificou sua partida, sua libertação. A Vontade impôs à Inteligência sua decisão, e a Inteligência, então, se viu impelida a justificar tal decisão. A Inteligência funcionou como um instrumento de justificação, de argumentação acerca daquilo que a Vontade o incitava a aceitar" (FORTEA, 2012, p. 22)


...


Bem queridxs, nesta primeira e exaustiva parte conceituamos teologicamente o que é o mal e, mais especificamente, o que é o demônio. Penso ter sido bastante densa e até um pouco chata pra quem não se interessa muito pelo tema, mas agora, com esses conceitos mais sólidos, poderemos seguir. Logo menos, a Parte 2, contando um pouco mais sobre o desenvolvimento do mal.



Abraços,
Pax Domini.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Saudade

Acho que essa história já foi contada sob a ótica de cada um, e sem dúvida, já li relatos maravilhosos que me fizeram chorar; como o texto de despedida da Julia, ou os textos do blog do Lucas, que eu sempre leio e me remetem à nostalgia daquele 2011, um dos melhores, mais tristes e nostálgicos anos da minha vida.
Vocês sabem quem sempre fui dado às letras, e só não me pronunciara antes porque, de certa forma, tive de blindar o peito contra a profunda tristeza que me acometeu em vista da minha desistência da Universidade Federal do ABC, e nunca tive a oportunidade expressar o meu pesar, que ficara registrado naquelas poucas palavras frias escritas no meu violão com o qual presenteei a pessoa da qual meu texto pretende tratar, nossa Goretinha.
Maria Gorete era a governanta da nossa casa, que como todos os lares decentes de estudante, também tinha um apelido, “pensão da Vó Flávia”.  Éramos por volta de 20 garotos e garotas sob a responsabilidade dela.
No começo, haja vista nossa empolgação embasbacada tão comum aos “bixos”, demos um pouco de trabalho. Uma semana desaparecia alguém, ela tinha de ligar pros pais que ficavam desesperados; então o sumido sempre aparecia no momento em que se pensava comunicar a polícia; algumas noites depois alguém dormia bêbado no telhado (nosso telhado era chamado de “país das maravilhas”; dispenso explicações); em alguma noite, tinha uma festa rolando no quarto de alguém, as escondidas; mas também tinham as noites malucas pré provas nas quais virávamos estudando na nossa querida salinha de estudos. Em todos esses momentos, a Gorete esteve ali, ao nosso lado, brincando, nos dando bronca, cantando, rindo e até chorando.
Juro que se eu pudesse, passaria no papel cada lembrança daqueles anos sofridos que ainda me acometem a memória, mas se há algo de belo na vida, é a tristeza advinda da nostalgia das lembranças que se perdem à memória conforme o tempo passa, então não o farei. Mas confesso-lhes que, de tantos momentos bons que passei ao lado de vocês, alguns dos mais proveitosos se resumiram em minhas conversas com a Gorete, naquelas tardes frias, quando eu preparava um cafezinho e nos sentávamos na cozinha para papear, logo após o almoço.
Tão logo eu percebera o potencial dramático do que me contava eu me atinha cada vez mais aos momentos em que passávamos conversando. Então quando o café esfriava e os afazeres voltavam a vir a tona, nos despedíamos. Então, eu corria pro meu quarto e anotava as suas histórias, suas paixões, as suas músicas; e com isso fui pouco a pouco juntando partes que mais tarde me renderiam alguns capítulos de um romance.
Meu texto versa de maneira não real acerca de ninguém e de todos;  apenas embasado em partes das histórias que ouvia, e da minha inspiração triste das despedidas matinais na esquina da Castro Alves com a Tamandaré, tristeza suficientemente inspiratória para que começasse a rabiscar essas palavras;
Mostrarei algumas páginas:

Tamandaré

Prólogo:  Memórias de um suicida.

“Não há nada a temer,
 a não ser as palavras.
 As margens são ilusões.”

Este poderia ser um texto com a intenção de um pedido de desculpas a todos vocês que amei de maneira singular, ou uma tentativa vil de justificação à minha desistência.
Apesar disso, diz-se que um verdadeiro escritor não deve morrer antes de versar ao menos um romance, e como já lhe havia prometido à jornalista G. B., e ela a mim que se comprometeria ao menos resguardá-lo, deixo-vos aqui o legado, primogênito e único que, na verdade, nada tem de diferente das porcarias que qualquer medíocre aventureiro as letras possa produzir num dia nublado ao som de Carlos Gardel. Mas como as mães que esbanjam cuidados para com os filhos, assim são os escritores com seus romances. Para os que duvidam do excesso de zelo com a obra, lembrem-se de Camões, e aqui no que dizem as más línguas, que no lendário episódio de um naufrágio preferira salvar o seu exemplar original dos Lusíadas à Dinamene, sua companheira até então.
Não somente por cuidado escreve-se, antes pois por vaidade tola, na esperança de ter a obra intercambiada entre os demais e com isso concretizar o eterno sonho utópico; eternizar-se. O Dilema de Aquiles, vida plena ou reconhecimento perante os homens. Diante da ideia, digo que não há outra maneira para fazê-lo se não por meio das palavras. “E disse Jesus: Eu sou o principio e o fim”.
O único contraponto, se assim o posso chamar, que o leitor não há de encontrar no texto, se não implicitamente de modo meramente sutil, é a fonte de inspiração da qual me deleito; uma tristeza profunda de alma, algo inquietante que me corrói os ossos dia após dia. No exato momento em que verso essa página já estava morto em vida.

São Paulo, Janeiro, 2013.



terça-feira, 10 de junho de 2014

Sobre o pão, o sal, o azeite, a luz e a casa

Caríssimos, boa noite!

Estava eu refletindo sobre nosso mundinho de Deus e acerca da problemática da propriedade privada que abordei tão levianamente em meu último post.
Pois bem, à luz da meditação da liturgia diária de hoje, cheguei a algumas conclusões que gostaria de partilhar convosco.
Primeiramente, transcrevo as duas leituras bíblicas indicadas para o dia de hoje (10/06/14): uma do Antigo Testamento e a outra pertencente ao Evangelho Segundo São Mateus.

Primeira Leitura (1Rs 17,7-16)

Leitura do Primeiro Livro dos Reis.
Naqueles dias, 7secou a torrente do lugar onde Elias estava escondido, porque não tinha chovido no país. 8Então a palavra do Senhor foi-lhe dirigida nestes termos: 9“Levanta-te e vai a Sarepta dos sidônios, e fica morando lá, pois ordenei a uma viúva desse lugar que te dê sustento”.
10Elias pôs-se a caminho e foi para Sarepta. Ao chegar à porta da cidade, viu uma viúva apanhando lenha. Ele chamou-a e disse: “Por favor, traze-me um pouco de água numa vasilha para eu beber”. 11Quando ela ia buscar água, Elias gritou-lhe: “Por favor, traze-me também um pedaço de pão em tua mão!”
12Ela respondeu: “Pela vida do Senhor, teu Deus, não tenho pão. Só tenho um punhado de farinha numa vasilha e um pouco de azeite na jarra. Eu estava apanhando dois pedaços de lenha, a fim de preparar esse resto para mim e meu filho, para comermos e depois esperar a morte”.
13Elias replicou-lhe: “Não te preocupes! Vai e faze como disseste. Mas, primeiro, prepara-me com isso um pãozinho, e traze-o. Depois farás o mesmo para ti e teu filho. 14Porque assim fala o Senhor, Deus de Israel: ‘A vasilha de farinha não acabará e a jarra de azeite não diminuirá, até o dia em que o Senhor enviar a chuva sobre a face da terra’”.
15A mulher foi e fez como Elias lhe tinha dito. E comeram, ele e ela e sua casa, durante muito tempo. 16A farinha da vasilha não acabou nem diminuiu o óleo da jarra, conforme o que o Senhor tinha dito por intermédio de Elias.

- Palavra do Senhor.
- Graças a Deus.

Evangelho (Mt 5,13-16)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 13“Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se tornar insosso, com que salgaremos? Ele não servirá para mais nada, senão para ser jogado fora e ser pisado pelos homens.
14Vós sois a luz do mundo. Não pode ficar escondida uma cidade construída sobre um monte. 15Ninguém acende uma lâmpada e a coloca debaixo de uma vasilha, mas sim num candeeiro, onde ela brilha para todos os que estão em casa. 16Assim também brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus”.

— Palavra da Salvação.


Agora, se me permitem, faço uma breve apreciação das leituras, à luz da visão cristã Católica.

Pois bem, vemos na primeira leitura o envio do profeta Elias à Sarepta, velha localidade entre as famosas cidades fenícias de Tiro e Sidônia e que hoje recebe o nome de Sarfand ou Sarafand, no Líbano, se não me engano.
Uma vez lá, é dada a uma viúva a tarefa de alimentar o profeta e sustentá-lo enquanto ele ali estiver.
A viúva, receosa, argumenta que a pouca provisão que possuía só seria suficiente para assar um pão para que ela e o filho comam e depois pereçam de fome. Confiante, Elias insiste para que ela asse o pão para ele e traga-lhe de comer, junto a um copo de água. Solidária, a mulher consente e lhe dá o único alimento. Mas eis que então nem a farinha, nem o azeite e tampouco a água que  a viúva possuía se acabam, mas dura por vários e vários dias.

Na leitura do Santo Evangelho vemos a bela e famosa comparação dos apóstolos - e aqui estão inclusos todos os homens e mulheres de boa vontade - com o sal e a luz. Eis que nos é dito: "Vós sois a luz das nações....e o sal da terra".

Que comparação gloriosa!

Ora, não é o sal que dá sabor ao alimento? Não é este mesmo que, inclusive, conserva contra a putrefação?
Ainda, não é a luz que ilumina e permite-nos ver a realidade do mundo com nossos próprios olhos?
E, no entanto, ambos operam - digamos - no anonimato.
Pois de fato é o sal que dá sabor e conserva, mas quando alguém se alimenta ninguém diz: "Que gostoso esse sal!" Mas sim, "Que gostosa essa comida!".
De modo análogo, é a luz que inunda nossos olhos para que vejamos as mais belas paisagens e ainda assim ninguém diz quão bela é a luz mas sim aquilo que ela revela!

Assim devemos nós agir, iluminar um caminho de trevas e conservar o mundo da putrefação iminente! E tudo isso seguindo uma única lei, dada a nós por Jesus em pessoa: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (cf. Mc 12: 31).
E sempre no silêncio! Dando ênfase ao projeto e não ao nosso ego.
É isso que extraio do Evangelho.

Sabendo já a forma como o apostolado cristão se dá, vejamos agora como ele sai do plano da fé, para adentrar o mundo das ações, retomando a primeira leitura:

Elias é o profeta e representa este mesmo apostolado de dedicação.
A viúva e seu filho representam os fracos e marginalizados da sociedade.
Aliás, a própria ambientação - Sarepta, estava situada num local de comum veneração do deus Baal, e não do deus hebraico, o que represente uma espécie de local hostil.
Eis que, no entanto, surge a viúva - figura socialmente e sentimentalmente desgraçada e que, mesmo legada ao relento, mantém a fé na promessa de seu deus. A fé é sua ultima esperança e, assim, mesmo sabendo ser aquele pão o último, ela o dá prontamente a Elias, num sinal de amor e solidariedade.
Vejam, é então que a fé tornou-se fecunda com obras e que, na partilha, obteve sua máxima glória.
Ao confiar na promessa de seu deus, ela deu TUDO o que tinha e, em troca, recebeu muito mais. A viúva foi protagonista, agente ativa no processo de construção de um mundo mais fraterno.
Em verdade, ela poderia ter recusado o pão a Elias - pois essa prerrogativa lhe é garantida pelo livre-arbítrio - e tanto ela e o filho quanto o profeta teriam morrido de fome.
Mas a partilha traz a multiplicação: isso é sempre visível na Bíblia.
Ora, lembrem-se da multiplicação dos pães e peixes por Jesus (cf. Mt 14: 15-20).
Ou, em última instância, da travessia de Moisés sobre o deserto e a forma como o pão sagrado (Maná) caiu miraculosamente sobre eles no momento de maior desespero (cf. Ex 16: 12-20).

Viram? Na nossa pequena divagação percebemos como se dá a comunicação de Deus com o homem e sua ação posterior rumo à uma melhora de mundo.
Ele fala conosco: até então é matéria de fé.
Então a fé se torna obra por meio da CARIDADE, da partilha.
E a partilha por fim multiplica os dons.

No entanto, lembremo-nos sempre que nossas ações devem ter por objeto o bem maior e não nossa própria imagem. Temos nosso valor, mas ele se mostra principalmente no bom andamento da sociedade - como percebemos com a luz e o sal.

Bom, mas questionem-me: "O que isso tudo tem a ver com o problema da propriedade privada?"
TUDO!

Como eu havia dito, talvez o cerne da problemática não seja a existência da propriedade em si, pois o sentimento de posse é algo inerente ao homem e que só se lhe pode ser destituído no plano das ideias.
No entanto, a privação da propriedade pode se resolver: com educação e solidariedade.
Afinal, se todos nós fôssemos solidários não haveria necessidade de ninguém se resguardar - e repito isso de meu HVMILITAS ET VITAE. Pois lembrem-se: o pão era posse da viúva, de fato. Mas ela decidiu dá-lo.

E é exatamente aí que reside o espírito da questão, vejam que sutil:

Porque amar NÃO é coletivizar e estar obrigado a dar.
Amar é possuir e, mesmo possuindo, QUERER DAR.

Que nossa sociedade então aprenda a AMAR, para aprender a partilhar.

Forte abraço!
Pax Domini. ;D

Postagem longaaa, se vc chegou até aqui, meus parabéns! hahahahaha ;D