Caríssimos,
nos dois posts iniciais dessa série, trouxemos a conceituação do mal na concepção cristã, tendo como referência a própria figura do demônio. Posta toda essas perguntas, passaremos agora ao relato de exorcismo. É óbvio que identidades aqui não serão reveladas. Para o relato que se segue, quem se aventurar a ler não o faça por sensacionalismo, mas para compreensão.
Primeiramente, o exorcismo consiste num ritual que visa à libertação do indivíduo em estado de possessão demoníaca. O ritual em geral é realizado com orações em latim - o que constitui um ponto essencial inclusive na descoberta se o caso se trata de uma auto sugestão ou de fato uma possessão. Ora, sabendo que a maioria da população em geral desconhece o latim, o sacerdote tem liberdade para orar ou mesmo interrogar o demônio. No caso de possessão, o indivíduo mesmo desconhecendo a língua, compreende o que é falado e inclusive responde ao padre. Neste ponto se torna inequívoco se tratar de uma possessão.
O ritual pode acontecer em uma ou várias sessões, separadas por períodos de oração do próprio indivíduo: tudo depende do grau da manifestação.
Em casos de obsessão demoníaca, onde a influencia maligna é meramente sugestiva e não toma - de fato - posse da pessoa, a Igreja admite várias orações de libertação que podem ser realizadas por grupos carismáticos ou mesmo leigos que quiserem o bem do afetado: rezar nunca é prejudicial.
Embora tenha se tornado moda ultimamente, poucas pessoas sabem que a medalha de São Bento é um dos maiores símbolos exorcistas. De fato, foi pra este mesmo propósito que ela fora criada.
Ainda, é sempre válido lembrar que em se tratando de exorcismos, um trabalho meticuloso é realizado afim de que não se confunda uma patologia mental com possessão diabólica. De fato, recomenda-se exaustivos exames médicos e tratamentos para que, em último caso, na ineficácia da ciência e na presença da prudência e do discernimento de um sacerdote, possa se recorrer ao exorcismo.
Por isso mesmo, o ritual não é realizado amplamente por todos os sacerdotes, mas somente mediante autorização EXPRESSA do bispo local, autorização essa que só é concedida a homens extremamente prudentes e piedosos.
Já vi várias vezes comentários do tipo: "Ah, se o capeta pode possuir um corpo, por que possui uma pessoa simples no meio do nada e não o Obama pra causar a terceira Guerra Mundial?"
Pois bem, a resposta é simples: o Diabo não possui à seu bel prazer.
Como vimos, tanto anjos como humanos têm liberdades para escolher seus caminhos, o que naturalmente leva esses caminhos a se cruzarem, eventualmente. Assim, a influência demoníaca no mundo seria evidente, mas apenas como mera sugestão. No silêncio.
No entanto, casos de possessão ocorrem precisamente quando Deus OBRIGA os demônios a se revelarem enquanto tal. É dito que Seus desígnios atuam assim para que as pessoas possam ver por si mesmas que existe um mal atuante ao qual devemos nos opor. Não é vantagem para nenhum demônio se revelar, isso comprova a espiritualidade à pessoas que nela não creem. Como diz uma frase famosa: "O maior triunfo do Diabo foi fazer com que não acreditassem em sua existência"
Aparecer atuante em um corpo já constitui para ele uma derrota, pois o possuído e todos a sua volta irão tomar medidas para uma vida bem mais virtuosa dali pra frente.
Agora, ao relato:
O relato se refere ao ritual ministrado pelo padre Fortea junto a jornalistas do jornal espanhol El Mundo:
O correspondente religioso de EL MUNDO vai, incrédulo, ao exorcismo que um sacerdote autorizado pelo Vaticano irá realizar. Mas fica comovido ao ver o que acontece com a jovem possuída pelo diabo
-"Hic est dies" (este é o dia), diz o exorcista com o crucifixo na mão.
-Não, responde uma voz rouca de homem que sai da garganta da possessa, uma bela menina de 20 anos.
-"Exi nunc, Zabulon", (saia agora, Zabulon), repete o sacerdote.
-No.
-Por que não quer sair?
-Para servir de testemunho.
-De testemunho de que?
-De que Satanás existe.
Corta-se a tensão no ambiente de penumbra da capela. Satán lutando contra Deus. Uma batalha à qual assisto atônito e em primeira fila pela primeira vez em minha vida. "Esta deve ser a razão pela qual me
convidou a presenciar o exorcismo. O diabo quer publicidade", penso no meio do choque. Minha mente gira a toda velocidade. Estamos no clímax de um ritual que, até agora, não encaixa em meus esquemas. E isso porque no seminário os padres seguiram alimentando meu medo infantil do Maligno, sempre disposto a tomar pose de uma alma. Depois do Concílio Vaticano II, o dogma da existência do diabo passou a ser uma "parte vergonhosa da doutrina" e, como tantos outros católicos, também eu prescindi dela.
O exorcista, José Antonio Fortea, pároco de Nossa Senhora de Zulema, está exausto. E isso por que tem apenas 33 anos. Mas está a mais de uma hora lutando, crucifixo empunhado, contra Satanás. Marta (nome fictício da possessa), ao contrário, está tão fresca como no princípio e não deixa de rugir, bufar, revolver-se e agitar seu corpo como uma massa. Com uma força inusitada para uma menina de 20 anos, ainda mais miúda e de traços doces. São 12h30 de um dia qualquer e estou ha uma hora e meia presenciando um exorcismo.
Um par de dias antes, recebi em meu celular uma ligação especial. Especial não por ser de um padre (recebo muitas), mas por ser de um exorcista católico (há um par deles na Espanha) que costumam manter-se muito afastados dos jornalistas. Quer me convidar a presenciar um exorcismo. Fiquei como uma pedra. Assistir a um exorcismo oficiado por um sacerdote autorizado pelo Vaticano é a sorte grande para alguém especializado em informação religiosa. Até esse momento e apesar de levar mais de 20 anos na profissão, o único que tinha conseguido foi entrevistar o exorcista oficial de Roma, o padre Gabriel Amorth. Já então, ao me dedicar seu livro havia escrito: "A José Manuel, com minha gratidão e com a advertência de não ter jamais medo do diabo".
Confesso que por medo decidi devolver o telefonema de parte Fortea e pedir que deixasse vir comigo um companheiro da agência EFE, também especialista em informação religiosa. Aceitou. Nervosos, no dia indicado fomos em carro até a diocese de Alcalá. Era um dia radiante. Chegamos à paróquia com muita apreensão. Questão de preparar-se psicologicamente. Pelo caminho, brincadeiras e nervosismo. O exorcista nos havia citado em sua paróquia, uma igreja moderna, de ladrilho vermelho, situada entre pinheiros. O interior, simples e limpo. Com um mesa e uma grande cruz no meio. Em um lateral, a pia de água benta com uma inscrição: "A água benta afasta a tentação do demônio".
Às 10h30, o exorcista sai do templo e vem a nosso encontro. É alto e magro. Usa bigodes e uma barba recortada. Seu aspecto é imponente. Talvez, por relacioná-lo com sua profissão de expulsador de demônios. Embutido em uma sotaina de um negro imaculado, seu rosto esbranquiçado e sua cabeça calva ressaltam ainda mais. Convida-nos a dar um passeio para nos explicar o caso.
Sete demônios
"Não sou nenhum
“showman” nem quero publicidade. Se estão aqui é porque
preciso de sua presença para libertar a menina. Têm que ser muito
prudentes. Não podem dar pista alguma que permita a identificação
nem da menina nem de sua mãe. Preferiria que também não
me nomeassem, mas aceito esse sacrifício em vistas de uma maior credibilidade.
Mas apenas Deus sabe o quanto me custa e os problemas que isso pode me causar.
E não tenham medo. Com vocês não acontecerá nada".Insiste
na seriedade do tema. Assegura que no Antigo Testamento aparece 18 vezes a palavra
Satã. E no Novo Testamento, 35 vezes a palavra diabo e 21 a palavra demônio.
O próprio Jesus fez muitos exorcismos ou o que os Evangelhos chamam "expulsar
demônios". Fortea recorda também que João Paulo II
realizou pelo menos três exorcismos reconhecidos e adverte que a crença
no diabo constitui um dos poucos traços comuns à praticamente
todas as religiões. "É o ponto ecumênico por excelência".
Aproveita para fazer um pequeno repasso pelas diversas religiões e épocas
históricas e as diversas teorias. Continuo me mostrando incrédulo.
Tenho da sensação de que se trata de nos condicionar buscando
justificações na História.
Para fazê-lo colocar os pés no chão, perguntamos detalhes do caso. Nos conta que se trata de uma menina possuída por sete demônios. Que já expulsou seis, mas que o último ainda resiste. "Chama-se Zabulon, é um diabo quase mudo, mas muito inteligente. Seu nome já aparece na Bíblia. O chefe sempre fica para o final. Estou já há 16 sessões e ainda não consegui expulsa-lo, quando nos casos mais normais, basta apenas três". Não quer dar mais detalhes da endemoniada. Diz apenas que virá acompanhada por sua mãe, "que é uma santa", e que a possessão deveu-se a um feitiço que lhe fez uma companheira de instituto, aos 16 anos. "Em uma das primeiras sessões perguntei-lhe como havia entrado e me respondeu um nome que eu não conhecia. Sua mãe me disse que era uma companheira de classe, que havia invocado Satã para fazer um feitiço de morte contra ela. E de fato, primeiro esteve gravíssima e a ponto de morrer. Uma vez curada, começaram os fenômenos raros". Desde então, sua mãe começa a detectar coisas estranhas em sua filha: móveis que se movem, objetos que se quebram e, principalmente, uma aversão especial aos objetos religiosos, quando era uma menina de ir à missa dominical. Até que um dia, de noite, ouve ruídos estranhos, se levanta e, quando abre a porta do quarto de sua filha, a vê sobre a cama levitando.
Como não quer perder sua única filha, começa a procurar remédios. Fala com o pároco, que a remete a dois famosos psiquiatras. Mas ambos diagnosticam que a menina é absolutamente normal. Nenhuma explicação científica para as constantes dores de cabeça que torturam sua filha. E então, Maria (nome fictício da mãe), a seus 60 anos, se lança à busca de um exorcista. Percorre quase todas as dioceses espanholas. Nenhum bispo quer saber nada de seu caso. Está já disposta a mudar-se com ela para a Itália para ver o padre Amorth, quando lhe falam de um exorcista espanhol que acaba de sair na televisão porque publicou um livro, Demoniacum, sobre os exorcismos.
Neste instante vemos chegar um táxi. "São elas", diz Fortea. Maria, a mãe, é pequena, magra. Seu olhar é todo dor: "Acredito em Deus e sei que, cedo ou tarde, libertará minha filha das garras de Zabulon. Estou há cinco anos neste calvário. Ninguém da minha família sabe. Nem meus irmãos", confessa. Maria é viúva e, cada vez que sai de sua casa para o encontro com o exorcista (praticamente, uma sessão por semana), tem que inventar alguma desculpa. "Não entenderiam e não quero que minha filha fique marcada para sempre".
O ritual
A seu lado, Marta sorri timidamente. Pequena, de grandes olhos negros, um pouco tristes, tem a cara marcada de uma adolescência. Cabelo negro, preso em um rabo. Os lábios grossos e sem pintar, embora contraídos quase com uma careta de dor. Usa jeans, uma blusa azul celeste de manga curta e gola alta e sapatos negros. É bonita. Seus olhos chamam a atenção, mas mais que timidez causam medo, muito medo. Parece uma menina normal que, nos conta, estuda Matemática na Universidade. "É impossível que esteja possessa", penso comigo mesmo.
O padre Fortea abre a capela, abaixo de sua paróquia onde diz a missa diariamente, e volta a fechar com chave por dentro. É pequena, acolhedora. Dentro, penumbra e silêncio absoluto. Fora, um sol radiante. O exorcista pede ajuda para transportar um colchonete forrado de plástico verde, grande e pesado, para coloca-lo ao pé do altar.
A capela, retangular, terá 25 metros quadrados. Sem janelas. No centro, um altar enorme. Em cima da toalha branca e seis velas acesas, sob uma grande Cruz da Trindade, apenas iluminada pela luz mortiça de um alógeno. Ao fundo, a imagem de um Pantocrátor iluminado e o Santíssimo. Em um lateral, uma imagem da Virgem com o Manino nos braços.
Entrando na capela, mãe e filha se preparam para o ritual. Marta coloca meias brancas, enquanto a mãe tira do bolso um terço, um crucifixo de 15 centímetros e uma estampa da Virgem de Fátima, e os coloca ao lado do colchonete. Trato de registrar o mais mínimo detalhe em minha mente. Sigo pensando que assisto a uma montagem. Marta deita no colchonete, olhando a cruz. Maria se ajoelha do seu lado, uma postura que não abandonará durante as seguintes duas horas e meia. O padre Fortea reza um momento de joelhos, tira a sotaina, bebe água e fica do outro lado do colchonete mais afastado do altar.
Pressinto que o ritual vai começar. Sento, com expectativa, no banco. O exorcista estende sua mão direita e a impõe sobre o rosto da jovem, sem tocá-la.Em seguida, fecha os olhos, abaixa a cabeça e sussurra várias vezes uma prece ininteligível. Um alarido desgarrador, o primeiro, quebra o silêncio da capela, penetra em minha alma e me arrepia. Não é humano. É um guincho assustador e profundo que sai da garganta de Marta. Mas não pode ser ela. Não é seu tom de voz. É rouco e masculino. O padre Fortea continua rezando e os rugidos se repetem. Pouco a pouco, o corpo da jovem se estremece vivamente. Sua cabeça se move de um lado a outro com lentidão no princípio, com inusitada rapidez depois.
"Sai, Zabulon"
Com a salmodia do exorcista, a jovem geme e se retorce sem parar. Num instante, o gemido se converte em
rugido
assustador, altíssimo, furioso. O exorcista acaba de colocar o crucifixo
sobre seu ventre e em seu peito, enquanto a asperge com água benta. Chuta
com tanta fúria que o crucifixo cai e a mãe o pega e uma e outra
vez volta a colocar novamente, enquanto aproxima o terço que Marta atira
longe, com fúria. Parece se tranqüilizar um pouco, mas imediatamente
volta a rugir. Não há um momento de descanso. O padre Fortea acaba
de invocar a São Jorge e, ao ouvi-lo, a jovem grita, bufa, colocas os
olhos totalmente em branco, arquea o corpo e se levanta toda a um palmo do colchão.
Não consigo acreditar.
-Beija o crucifixo, diz o exorcista.
-Não.
-Jesus é Rei.
-Assididididaj.
-Sequaz de Satanás, estás nas trevas.
-Assididididaj
-Estás fazendo muito bem. Por tua culpa, muita gente vai crer em Deus.
-Não.
-Sai, Zabulon, eu te ordeno em nome de Cristo. A condenação eterna está a sua espera. Não há salvação para ti.
Enquanto o padre Fortea continua ameaçando Zabulon, as mãos da jovem vão se transformando. São como garras. O exorcista reforça suas preces e suas exortações: "Hoje é o dia. Sai, Zabulon. Sai desta criatura em nome de Deus". A jovem se desata em tremores. Os gritos se elevam até o espanto. E com voz rouca diz: "Assassinos". É então que o padre Fortea lhe pergunta porque não sai e Zabulon lhe responde: "Para que as pessoas acreditem em Satanás".
Esgotado, após uma hora e meia de luta, o exorcista se levanta e sai da capela. Isto não pode ser uma impostura nem uma montagem. É preciso muita coragem para dedicar-se a isso. E menos mal que os casos de possessão, segundo conta depois o padre Fortea, são muito poucos. Ele está há cinco anos exercendo e teve apenas quatro na Espanha. Mas, enquanto preparava sua tese, assistiu a outros 13 exorcismos. Nota-se que tem prática: manda, ameaça, insiste e, com voz suave, mas enérgica, tortura o diabo sem piedade. Com o que mais lhe dói. Sempre em nome de Deus. Não parece ter medo algum. E isso que já sabe o que é ser atacado por Satanás. Uma vez, em um exorcismo, diz que o diabo lhe fez sentir a mesma sensação e a mesma dor do que leva uma punhalada no braço.
Fortea sai da capela e meu coração acelera, pensando o que pode ocorrer agora sem a presença tranqüilizadora do exorcista. Mas não acontece nada. Ou sim. Maria, a mãe, pega o livro do rito e começa a repetir as mesmas ou parecidas frases do exorcista. Com calma, mas com decisão, parece não se dirigir a sua filha, mas ao Maligno que a possui:
-Em nome de Cristo te ordeno sair.
-Não.
-Abre os olhos e olha a Virgem, encrespa enquanto voltar o olhar sobre um postal da Virgem de Fátima.Mas, por toda resposta, obtém um grunhido. Então pega o crucifixo.
-É teu Criador, vês?
-Sim, diz a voz de além-tumba acompanhada de rugidos e grunhidos constantes.
-Olha, Zabulon, não resista. Sabes que é teu dia e tua hora. Chegou teu dia e tua hora.
-Nãããããooo...
-Por que resiste?
-Estou farto. Já te disse muitas vezes.
-Diga a esses senhores por que não te vais.
-Uhhhh.
-Diga-o claramente.
-Não quero.
-Diga-o em nome de Cristo
-Para que creiam em Satanás.
-São Jorge, vem. São Jorge, vem. Vem, São Jorge. Sai dela "São Jorge". (o padre se engana em meio às repetições e ao invés de dizer "Sai dela Zabulon" acaba repetindo o nome do santo)
A possessa pára um segundo, sorri e diz, com deboche:
-Sai são Jorge...
Aproveita o erro da improvisada exorcista e fará o mesmo, logo depois, com um pequeno equívoco do padre Fortea. Mas Maria não se dá por vencida. É uma autêntica Dolorosa ao pé da cruz de sua filha possuída. Sinto tanta pena que também me ajoelho e, entre lágrimas, suplico a Deus (em voz baixa, não me atrevo a intervir mais diretamente) que, pelo que mais queira, liberte Marta. Meu companheiro faz o mesmo. Fazia tempo que não rezava com tanto fervor.
Então entra de novo o exorcista, pega uma caixinha com hóstias consagradas do sacrário e se coloca diante da jovem:
-Veja o Rei dos Reis e ajoelha-te diante dEle.
-Não.
-Servo desobediente e rebelde, ajoelha-te, repete o padre Fortea, exibindo a hóstia consagrada.
-Assassino, deixa-me.
-São Jorge, faz com que se ajoelhe.
E como rapidamente, com a menção de são Jorge, a possessa se ajoelha e o padre Fortea faz com que abra a boca e receba a sagrada comunhão. E continua torturando o diabo que está em Marta. Após dar a comunhão, pega uma Bíblia e recita o Apocalipse: "Então o diabo foi arrojado à língua de fogo e enxofre... ali será atormentados dia e noite pelos séculos dos séculos". E faz o diabo repetir frase por frase.
-Repete: Quanto mais teria me valido seguir a luz.
-Quanto-mais-teria-me -valido-seguir-a-luz, repete entre dentes e arrastando cada palavra.
E assim durante um longo tempo. O exorcista parece um professor que ensina uma criança rebelde, que repete à força entre bufos e alaridos, frases como estas: "Senhor, tu és Rei. Eu sou tua criatura. Nada escapa de teu poder. És o Alfa e Omega..."
-Já chega. Estou me cansando, grunhe.
Mas o padre Fortea persiste em acosso, pega um banquinho e se sente diante da possessa com um crucifixo na mão. "Hic est dies", repete com força. Por um momento, creio que vai conseguir.
-Quanto mais demores em sair, mais gente crerá em Deus. És um pregador de Deus. Aproxima-te, senta-te e beija Cristo crucificado. Dai-lhe um beijo de respeito e homenagem.
Como zumbi, Marta se senta e se aproxima da cruz. Tem os olhos em branco e a boca espumando, mas beija o crucifixo. Então Fortea a segura suavemente por um braço, a faz levantar a obriga a percorrer a capela e a beijar a Virgem e o Sacrário.
-Aquí está Deus. Repete sete vezes: Iesus, lux mundi. A possessa repete, mas ao terminar lança um olhar como de fogo e diz:
-Assassino, deixa-me, não posso mais. Mas o exorcista continua mais um tempo.
Passou uma hora. Fortea pára um pouco. "Agora a senhora", diz à mãe. E sai da capela. E Maria se inclina sobre sua filha e começa a repreender Zabulón:
-Tens que deixar esta criatura. Pelo sangue de Cristo, deixe-a. Seus anjos estão com ela. Vêm os três arcanjos. A Virgem vai te esmagar a cabeça...
Zabulón continua bufando e se retorcendo, mas não parece disposto a ir embora. Novamente entra o padre Fortea:
-Não temes a sentença de Deus?
-Sei qual é, grita desgarrada.
Sozinhos com a endemoniada
O padre Fortea olha a mãe:
"Não se vá. Deixemo-los por hoje". Levanta-se e vai.
Os gritos se detêm em seco. Noto certa decepção no rosto
de Maria. Deu-me a sensação de que esperava que fosse hoje. Passou
quase três horas de joelho, mas em sua cara não há sinais
e cansaço, apenas de certa desilusão. Recolhe com paciência
a imagem da Virgem e o crucifixo e sai da capela. Meu companheiro e eu ficamos
sozinhos com a endemoniada. Alguns segundos que se fazem eternos. Ficamos grudados
no banco, sem respiração. De repente, volta-se para nós,
abre os olhos (que manteve em branco durante três horas) e nos lança
um olhar que não esquecerei enquanto eu viver. Seus olhos são
de outro mundo. Nunca vi algo assim em minha vida. Ao mesmo instante, o olhar
volta a ser o de Marta, que nos sorri, levanta-se com tranqüilidade, senta-se
no banco e tira as meias brancas que dobra com muito cuidado. Noto que apenas
transpira, apesar das três horas de exercício contínuo.
Coloca os brincos e volta a sorrir.
-Como está?
-Cansada
-Sabe o que aconteceu?
-Não, não lembro. E enquanto nos fala, pega a estampa e o crucifixo, os que um instante atrás tanto odiava, e os beija com carinho.
- Sente dor de garganta?
-Não.
E sua voz é tão suave como quando chegou. Ninguém diria que por essa mesma garganta saíram guinchos durantes três horas.
-Sabes por que está aqui?
-Sim, isso eu sei. Sei que tenho...
Não termina a frase. Respeitamos seu silêncio. Saímos e nos sentamos em uma sala contígua os cinco. Marta está tranquila. Volta a ser a menina tímida de antes.
"Todas as noites", nos conta Maria, "antes de me deitar pego o crucifixo, do qual nunca me separo, e abençôo o meu quarto: "Em nome de Deus, maus espíritos saiam deste quarto. E ela, antes de se deitar, sempre me pergunta: "Mãe, já abençoou o quarto?"" Mas mesmo assim sente medo. Como quando as mãos de sua filha se tornaram garras ao tocar a cruz ou quando a persignei com os dedos abertos, em forma de chifres, para crava-los nos olhos."Sempre ameaças que, afortunadamente, nunca cumprem".
E antes de se despedir, repete uma súplica: "Que os bispos e as pessoas se conscientizem. Que tenha muito mais exorcistas". Abraça sua filha, as duas sobem no carro do padre Fortea e vão embora. Marta volta-se e nos olha. Seus olhos são o grito de angústia do escravo acorrentado. O padre Fortea fica de me ligar quando ocorrer a libertação definitiva.
Rezo por Marta e por sua mãe. O que vi não é uma montagem.
Assim é Zabulon
"Não fala muito, mas é muito inteligente". Assim descreve o padre Fortea a Zabulon, o inimigo contra o qual vem lutando há sete meses. No princípio, o padre Fortea pensou simplesmente que assim se chamava o décimo filho de Jacó e Lia, sua mulher. Depois, investigando um pouco mais, deu-se conta de que estava lidando com um dos demônios mais poderosos do inferno.
Apareceu apenas três vezes na História. A primeira, em Ludón (França), no século XVI. Quase todas as freiras de um convento ficaram possuídas por uma multidão de diabos, que as atormentavam sem cessar. O chefe era Zabulon. A segunda, foi nos anos 50, em um caso de exorcismo realizado pelo padre Cândido, o exorcista italiano mestre do padre Amorth. E agora, voltou a aparecer.
Como se vê, o exorcismo é um ritual que compreende às vezes várias sessões, durante anos. Muitas vezes, não acontece nada de extraordinário, tornando-se rituais extremamente monótonos, como o próprio padre Fortea relata. Não existe uma regra, existe a oração e a piedade, atuando para libertar os aflitos.
Num primeiro momento era minha intenção pôr mais de um relato, mas dos relatos possíveis de se comprovar veracidade não encontrei nenhum que fugisse aos moldes desse, não acrescentando portanto, nada em sua leitura. Leiam. Reflitam.
Há mais nesse mundo que nossos olhos podem ver, disso tenho certeza.
Mas não temam absolutamente nada! Deus é supremo. Sua Santa Mãe é superior ao mal e sempre nos acolherá!
Abraços,
Pax Domini..
* Pra quem não curtiu o tema, relaxem. No próximo post voltaremos aos temas políticos hhahahahhahaha.
nos dois posts iniciais dessa série, trouxemos a conceituação do mal na concepção cristã, tendo como referência a própria figura do demônio. Posta toda essas perguntas, passaremos agora ao relato de exorcismo. É óbvio que identidades aqui não serão reveladas. Para o relato que se segue, quem se aventurar a ler não o faça por sensacionalismo, mas para compreensão.Primeiramente, o exorcismo consiste num ritual que visa à libertação do indivíduo em estado de possessão demoníaca. O ritual em geral é realizado com orações em latim - o que constitui um ponto essencial inclusive na descoberta se o caso se trata de uma auto sugestão ou de fato uma possessão. Ora, sabendo que a maioria da população em geral desconhece o latim, o sacerdote tem liberdade para orar ou mesmo interrogar o demônio. No caso de possessão, o indivíduo mesmo desconhecendo a língua, compreende o que é falado e inclusive responde ao padre. Neste ponto se torna inequívoco se tratar de uma possessão.
O ritual pode acontecer em uma ou várias sessões, separadas por períodos de oração do próprio indivíduo: tudo depende do grau da manifestação.
Em casos de obsessão demoníaca, onde a influencia maligna é meramente sugestiva e não toma - de fato - posse da pessoa, a Igreja admite várias orações de libertação que podem ser realizadas por grupos carismáticos ou mesmo leigos que quiserem o bem do afetado: rezar nunca é prejudicial.
Embora tenha se tornado moda ultimamente, poucas pessoas sabem que a medalha de São Bento é um dos maiores símbolos exorcistas. De fato, foi pra este mesmo propósito que ela fora criada.
Ainda, é sempre válido lembrar que em se tratando de exorcismos, um trabalho meticuloso é realizado afim de que não se confunda uma patologia mental com possessão diabólica. De fato, recomenda-se exaustivos exames médicos e tratamentos para que, em último caso, na ineficácia da ciência e na presença da prudência e do discernimento de um sacerdote, possa se recorrer ao exorcismo.
Por isso mesmo, o ritual não é realizado amplamente por todos os sacerdotes, mas somente mediante autorização EXPRESSA do bispo local, autorização essa que só é concedida a homens extremamente prudentes e piedosos.
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| Medalha de São Bento: Aliado na luta contra o Mal. |
Pois bem, a resposta é simples: o Diabo não possui à seu bel prazer.
Como vimos, tanto anjos como humanos têm liberdades para escolher seus caminhos, o que naturalmente leva esses caminhos a se cruzarem, eventualmente. Assim, a influência demoníaca no mundo seria evidente, mas apenas como mera sugestão. No silêncio.
No entanto, casos de possessão ocorrem precisamente quando Deus OBRIGA os demônios a se revelarem enquanto tal. É dito que Seus desígnios atuam assim para que as pessoas possam ver por si mesmas que existe um mal atuante ao qual devemos nos opor. Não é vantagem para nenhum demônio se revelar, isso comprova a espiritualidade à pessoas que nela não creem. Como diz uma frase famosa: "O maior triunfo do Diabo foi fazer com que não acreditassem em sua existência"
Aparecer atuante em um corpo já constitui para ele uma derrota, pois o possuído e todos a sua volta irão tomar medidas para uma vida bem mais virtuosa dali pra frente.
Agora, ao relato:
O relato se refere ao ritual ministrado pelo padre Fortea junto a jornalistas do jornal espanhol El Mundo:
O correspondente religioso de EL MUNDO vai, incrédulo, ao exorcismo que um sacerdote autorizado pelo Vaticano irá realizar. Mas fica comovido ao ver o que acontece com a jovem possuída pelo diabo
-"Hic est dies" (este é o dia), diz o exorcista com o crucifixo na mão.
-Não, responde uma voz rouca de homem que sai da garganta da possessa, uma bela menina de 20 anos.
-"Exi nunc, Zabulon", (saia agora, Zabulon), repete o sacerdote.
-No.
-Por que não quer sair?
-Para servir de testemunho.
-De testemunho de que?
-De que Satanás existe.
Corta-se a tensão no ambiente de penumbra da capela. Satán lutando contra Deus. Uma batalha à qual assisto atônito e em primeira fila pela primeira vez em minha vida. "Esta deve ser a razão pela qual me
convidou a presenciar o exorcismo. O diabo quer publicidade", penso no meio do choque. Minha mente gira a toda velocidade. Estamos no clímax de um ritual que, até agora, não encaixa em meus esquemas. E isso porque no seminário os padres seguiram alimentando meu medo infantil do Maligno, sempre disposto a tomar pose de uma alma. Depois do Concílio Vaticano II, o dogma da existência do diabo passou a ser uma "parte vergonhosa da doutrina" e, como tantos outros católicos, também eu prescindi dela.
O exorcista, José Antonio Fortea, pároco de Nossa Senhora de Zulema, está exausto. E isso por que tem apenas 33 anos. Mas está a mais de uma hora lutando, crucifixo empunhado, contra Satanás. Marta (nome fictício da possessa), ao contrário, está tão fresca como no princípio e não deixa de rugir, bufar, revolver-se e agitar seu corpo como uma massa. Com uma força inusitada para uma menina de 20 anos, ainda mais miúda e de traços doces. São 12h30 de um dia qualquer e estou ha uma hora e meia presenciando um exorcismo.
Um par de dias antes, recebi em meu celular uma ligação especial. Especial não por ser de um padre (recebo muitas), mas por ser de um exorcista católico (há um par deles na Espanha) que costumam manter-se muito afastados dos jornalistas. Quer me convidar a presenciar um exorcismo. Fiquei como uma pedra. Assistir a um exorcismo oficiado por um sacerdote autorizado pelo Vaticano é a sorte grande para alguém especializado em informação religiosa. Até esse momento e apesar de levar mais de 20 anos na profissão, o único que tinha conseguido foi entrevistar o exorcista oficial de Roma, o padre Gabriel Amorth. Já então, ao me dedicar seu livro havia escrito: "A José Manuel, com minha gratidão e com a advertência de não ter jamais medo do diabo".
Confesso que por medo decidi devolver o telefonema de parte Fortea e pedir que deixasse vir comigo um companheiro da agência EFE, também especialista em informação religiosa. Aceitou. Nervosos, no dia indicado fomos em carro até a diocese de Alcalá. Era um dia radiante. Chegamos à paróquia com muita apreensão. Questão de preparar-se psicologicamente. Pelo caminho, brincadeiras e nervosismo. O exorcista nos havia citado em sua paróquia, uma igreja moderna, de ladrilho vermelho, situada entre pinheiros. O interior, simples e limpo. Com um mesa e uma grande cruz no meio. Em um lateral, a pia de água benta com uma inscrição: "A água benta afasta a tentação do demônio".
Às 10h30, o exorcista sai do templo e vem a nosso encontro. É alto e magro. Usa bigodes e uma barba recortada. Seu aspecto é imponente. Talvez, por relacioná-lo com sua profissão de expulsador de demônios. Embutido em uma sotaina de um negro imaculado, seu rosto esbranquiçado e sua cabeça calva ressaltam ainda mais. Convida-nos a dar um passeio para nos explicar o caso.
Sete demônios
"Não sou nenhum
“showman” nem quero publicidade. Se estão aqui é porque
preciso de sua presença para libertar a menina. Têm que ser muito
prudentes. Não podem dar pista alguma que permita a identificação
nem da menina nem de sua mãe. Preferiria que também não
me nomeassem, mas aceito esse sacrifício em vistas de uma maior credibilidade.
Mas apenas Deus sabe o quanto me custa e os problemas que isso pode me causar.
E não tenham medo. Com vocês não acontecerá nada".Insiste
na seriedade do tema. Assegura que no Antigo Testamento aparece 18 vezes a palavra
Satã. E no Novo Testamento, 35 vezes a palavra diabo e 21 a palavra demônio.
O próprio Jesus fez muitos exorcismos ou o que os Evangelhos chamam "expulsar
demônios". Fortea recorda também que João Paulo II
realizou pelo menos três exorcismos reconhecidos e adverte que a crença
no diabo constitui um dos poucos traços comuns à praticamente
todas as religiões. "É o ponto ecumênico por excelência".
Aproveita para fazer um pequeno repasso pelas diversas religiões e épocas
históricas e as diversas teorias. Continuo me mostrando incrédulo.
Tenho da sensação de que se trata de nos condicionar buscando
justificações na História. Para fazê-lo colocar os pés no chão, perguntamos detalhes do caso. Nos conta que se trata de uma menina possuída por sete demônios. Que já expulsou seis, mas que o último ainda resiste. "Chama-se Zabulon, é um diabo quase mudo, mas muito inteligente. Seu nome já aparece na Bíblia. O chefe sempre fica para o final. Estou já há 16 sessões e ainda não consegui expulsa-lo, quando nos casos mais normais, basta apenas três". Não quer dar mais detalhes da endemoniada. Diz apenas que virá acompanhada por sua mãe, "que é uma santa", e que a possessão deveu-se a um feitiço que lhe fez uma companheira de instituto, aos 16 anos. "Em uma das primeiras sessões perguntei-lhe como havia entrado e me respondeu um nome que eu não conhecia. Sua mãe me disse que era uma companheira de classe, que havia invocado Satã para fazer um feitiço de morte contra ela. E de fato, primeiro esteve gravíssima e a ponto de morrer. Uma vez curada, começaram os fenômenos raros". Desde então, sua mãe começa a detectar coisas estranhas em sua filha: móveis que se movem, objetos que se quebram e, principalmente, uma aversão especial aos objetos religiosos, quando era uma menina de ir à missa dominical. Até que um dia, de noite, ouve ruídos estranhos, se levanta e, quando abre a porta do quarto de sua filha, a vê sobre a cama levitando.
Como não quer perder sua única filha, começa a procurar remédios. Fala com o pároco, que a remete a dois famosos psiquiatras. Mas ambos diagnosticam que a menina é absolutamente normal. Nenhuma explicação científica para as constantes dores de cabeça que torturam sua filha. E então, Maria (nome fictício da mãe), a seus 60 anos, se lança à busca de um exorcista. Percorre quase todas as dioceses espanholas. Nenhum bispo quer saber nada de seu caso. Está já disposta a mudar-se com ela para a Itália para ver o padre Amorth, quando lhe falam de um exorcista espanhol que acaba de sair na televisão porque publicou um livro, Demoniacum, sobre os exorcismos.
Neste instante vemos chegar um táxi. "São elas", diz Fortea. Maria, a mãe, é pequena, magra. Seu olhar é todo dor: "Acredito em Deus e sei que, cedo ou tarde, libertará minha filha das garras de Zabulon. Estou há cinco anos neste calvário. Ninguém da minha família sabe. Nem meus irmãos", confessa. Maria é viúva e, cada vez que sai de sua casa para o encontro com o exorcista (praticamente, uma sessão por semana), tem que inventar alguma desculpa. "Não entenderiam e não quero que minha filha fique marcada para sempre".
O ritual
A seu lado, Marta sorri timidamente. Pequena, de grandes olhos negros, um pouco tristes, tem a cara marcada de uma adolescência. Cabelo negro, preso em um rabo. Os lábios grossos e sem pintar, embora contraídos quase com uma careta de dor. Usa jeans, uma blusa azul celeste de manga curta e gola alta e sapatos negros. É bonita. Seus olhos chamam a atenção, mas mais que timidez causam medo, muito medo. Parece uma menina normal que, nos conta, estuda Matemática na Universidade. "É impossível que esteja possessa", penso comigo mesmo.
O padre Fortea abre a capela, abaixo de sua paróquia onde diz a missa diariamente, e volta a fechar com chave por dentro. É pequena, acolhedora. Dentro, penumbra e silêncio absoluto. Fora, um sol radiante. O exorcista pede ajuda para transportar um colchonete forrado de plástico verde, grande e pesado, para coloca-lo ao pé do altar.
A capela, retangular, terá 25 metros quadrados. Sem janelas. No centro, um altar enorme. Em cima da toalha branca e seis velas acesas, sob uma grande Cruz da Trindade, apenas iluminada pela luz mortiça de um alógeno. Ao fundo, a imagem de um Pantocrátor iluminado e o Santíssimo. Em um lateral, uma imagem da Virgem com o Manino nos braços.
Entrando na capela, mãe e filha se preparam para o ritual. Marta coloca meias brancas, enquanto a mãe tira do bolso um terço, um crucifixo de 15 centímetros e uma estampa da Virgem de Fátima, e os coloca ao lado do colchonete. Trato de registrar o mais mínimo detalhe em minha mente. Sigo pensando que assisto a uma montagem. Marta deita no colchonete, olhando a cruz. Maria se ajoelha do seu lado, uma postura que não abandonará durante as seguintes duas horas e meia. O padre Fortea reza um momento de joelhos, tira a sotaina, bebe água e fica do outro lado do colchonete mais afastado do altar.
Pressinto que o ritual vai começar. Sento, com expectativa, no banco. O exorcista estende sua mão direita e a impõe sobre o rosto da jovem, sem tocá-la.Em seguida, fecha os olhos, abaixa a cabeça e sussurra várias vezes uma prece ininteligível. Um alarido desgarrador, o primeiro, quebra o silêncio da capela, penetra em minha alma e me arrepia. Não é humano. É um guincho assustador e profundo que sai da garganta de Marta. Mas não pode ser ela. Não é seu tom de voz. É rouco e masculino. O padre Fortea continua rezando e os rugidos se repetem. Pouco a pouco, o corpo da jovem se estremece vivamente. Sua cabeça se move de um lado a outro com lentidão no princípio, com inusitada rapidez depois.
"Sai, Zabulon"
Com a salmodia do exorcista, a jovem geme e se retorce sem parar. Num instante, o gemido se converte em
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| O padre Fortea assegura que não há o que temer. Deus sempre está conosco |
-Beija o crucifixo, diz o exorcista.
-Não.
-Jesus é Rei.
-Assididididaj.
-Sequaz de Satanás, estás nas trevas.
-Assididididaj
-Estás fazendo muito bem. Por tua culpa, muita gente vai crer em Deus.
-Não.
-Sai, Zabulon, eu te ordeno em nome de Cristo. A condenação eterna está a sua espera. Não há salvação para ti.
Enquanto o padre Fortea continua ameaçando Zabulon, as mãos da jovem vão se transformando. São como garras. O exorcista reforça suas preces e suas exortações: "Hoje é o dia. Sai, Zabulon. Sai desta criatura em nome de Deus". A jovem se desata em tremores. Os gritos se elevam até o espanto. E com voz rouca diz: "Assassinos". É então que o padre Fortea lhe pergunta porque não sai e Zabulon lhe responde: "Para que as pessoas acreditem em Satanás".
Esgotado, após uma hora e meia de luta, o exorcista se levanta e sai da capela. Isto não pode ser uma impostura nem uma montagem. É preciso muita coragem para dedicar-se a isso. E menos mal que os casos de possessão, segundo conta depois o padre Fortea, são muito poucos. Ele está há cinco anos exercendo e teve apenas quatro na Espanha. Mas, enquanto preparava sua tese, assistiu a outros 13 exorcismos. Nota-se que tem prática: manda, ameaça, insiste e, com voz suave, mas enérgica, tortura o diabo sem piedade. Com o que mais lhe dói. Sempre em nome de Deus. Não parece ter medo algum. E isso que já sabe o que é ser atacado por Satanás. Uma vez, em um exorcismo, diz que o diabo lhe fez sentir a mesma sensação e a mesma dor do que leva uma punhalada no braço.
Fortea sai da capela e meu coração acelera, pensando o que pode ocorrer agora sem a presença tranqüilizadora do exorcista. Mas não acontece nada. Ou sim. Maria, a mãe, pega o livro do rito e começa a repetir as mesmas ou parecidas frases do exorcista. Com calma, mas com decisão, parece não se dirigir a sua filha, mas ao Maligno que a possui:
-Em nome de Cristo te ordeno sair.
-Não.
-Abre os olhos e olha a Virgem, encrespa enquanto voltar o olhar sobre um postal da Virgem de Fátima.Mas, por toda resposta, obtém um grunhido. Então pega o crucifixo.
-É teu Criador, vês?
-Sim, diz a voz de além-tumba acompanhada de rugidos e grunhidos constantes.
-Olha, Zabulon, não resista. Sabes que é teu dia e tua hora. Chegou teu dia e tua hora.
-Nãããããooo...
-Por que resiste?
-Estou farto. Já te disse muitas vezes.
-Diga a esses senhores por que não te vais.
-Uhhhh.
-Diga-o claramente.
-Não quero.
-Diga-o em nome de Cristo
-Para que creiam em Satanás.
-São Jorge, vem. São Jorge, vem. Vem, São Jorge. Sai dela "São Jorge". (o padre se engana em meio às repetições e ao invés de dizer "Sai dela Zabulon" acaba repetindo o nome do santo)
A possessa pára um segundo, sorri e diz, com deboche:
-Sai são Jorge...
Aproveita o erro da improvisada exorcista e fará o mesmo, logo depois, com um pequeno equívoco do padre Fortea. Mas Maria não se dá por vencida. É uma autêntica Dolorosa ao pé da cruz de sua filha possuída. Sinto tanta pena que também me ajoelho e, entre lágrimas, suplico a Deus (em voz baixa, não me atrevo a intervir mais diretamente) que, pelo que mais queira, liberte Marta. Meu companheiro faz o mesmo. Fazia tempo que não rezava com tanto fervor.
Então entra de novo o exorcista, pega uma caixinha com hóstias consagradas do sacrário e se coloca diante da jovem:
-Veja o Rei dos Reis e ajoelha-te diante dEle.
-Não.
-Servo desobediente e rebelde, ajoelha-te, repete o padre Fortea, exibindo a hóstia consagrada.
-Assassino, deixa-me.
-São Jorge, faz com que se ajoelhe.
E como rapidamente, com a menção de são Jorge, a possessa se ajoelha e o padre Fortea faz com que abra a boca e receba a sagrada comunhão. E continua torturando o diabo que está em Marta. Após dar a comunhão, pega uma Bíblia e recita o Apocalipse: "Então o diabo foi arrojado à língua de fogo e enxofre... ali será atormentados dia e noite pelos séculos dos séculos". E faz o diabo repetir frase por frase.
-Repete: Quanto mais teria me valido seguir a luz.
-Quanto-mais-teria-me -valido-seguir-a-luz, repete entre dentes e arrastando cada palavra.
E assim durante um longo tempo. O exorcista parece um professor que ensina uma criança rebelde, que repete à força entre bufos e alaridos, frases como estas: "Senhor, tu és Rei. Eu sou tua criatura. Nada escapa de teu poder. És o Alfa e Omega..."
-Já chega. Estou me cansando, grunhe.
Mas o padre Fortea persiste em acosso, pega um banquinho e se sente diante da possessa com um crucifixo na mão. "Hic est dies", repete com força. Por um momento, creio que vai conseguir.
-Quanto mais demores em sair, mais gente crerá em Deus. És um pregador de Deus. Aproxima-te, senta-te e beija Cristo crucificado. Dai-lhe um beijo de respeito e homenagem.
Como zumbi, Marta se senta e se aproxima da cruz. Tem os olhos em branco e a boca espumando, mas beija o crucifixo. Então Fortea a segura suavemente por um braço, a faz levantar a obriga a percorrer a capela e a beijar a Virgem e o Sacrário.
-Aquí está Deus. Repete sete vezes: Iesus, lux mundi. A possessa repete, mas ao terminar lança um olhar como de fogo e diz:
-Assassino, deixa-me, não posso mais. Mas o exorcista continua mais um tempo.
Passou uma hora. Fortea pára um pouco. "Agora a senhora", diz à mãe. E sai da capela. E Maria se inclina sobre sua filha e começa a repreender Zabulón:
-Tens que deixar esta criatura. Pelo sangue de Cristo, deixe-a. Seus anjos estão com ela. Vêm os três arcanjos. A Virgem vai te esmagar a cabeça...
Zabulón continua bufando e se retorcendo, mas não parece disposto a ir embora. Novamente entra o padre Fortea:
-Não temes a sentença de Deus?
-Sei qual é, grita desgarrada.
Sozinhos com a endemoniada
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| A invocação do nome de São João Paulo II também tem sido uma poderosa intercessão no combate contra os demônios. |
-Como está?
-Cansada
-Sabe o que aconteceu?
-Não, não lembro. E enquanto nos fala, pega a estampa e o crucifixo, os que um instante atrás tanto odiava, e os beija com carinho.
- Sente dor de garganta?
-Não.
E sua voz é tão suave como quando chegou. Ninguém diria que por essa mesma garganta saíram guinchos durantes três horas.
-Sabes por que está aqui?
-Sim, isso eu sei. Sei que tenho...
Não termina a frase. Respeitamos seu silêncio. Saímos e nos sentamos em uma sala contígua os cinco. Marta está tranquila. Volta a ser a menina tímida de antes.
"Todas as noites", nos conta Maria, "antes de me deitar pego o crucifixo, do qual nunca me separo, e abençôo o meu quarto: "Em nome de Deus, maus espíritos saiam deste quarto. E ela, antes de se deitar, sempre me pergunta: "Mãe, já abençoou o quarto?"" Mas mesmo assim sente medo. Como quando as mãos de sua filha se tornaram garras ao tocar a cruz ou quando a persignei com os dedos abertos, em forma de chifres, para crava-los nos olhos."Sempre ameaças que, afortunadamente, nunca cumprem".
E antes de se despedir, repete uma súplica: "Que os bispos e as pessoas se conscientizem. Que tenha muito mais exorcistas". Abraça sua filha, as duas sobem no carro do padre Fortea e vão embora. Marta volta-se e nos olha. Seus olhos são o grito de angústia do escravo acorrentado. O padre Fortea fica de me ligar quando ocorrer a libertação definitiva.
Rezo por Marta e por sua mãe. O que vi não é uma montagem.
Assim é Zabulon
"Não fala muito, mas é muito inteligente". Assim descreve o padre Fortea a Zabulon, o inimigo contra o qual vem lutando há sete meses. No princípio, o padre Fortea pensou simplesmente que assim se chamava o décimo filho de Jacó e Lia, sua mulher. Depois, investigando um pouco mais, deu-se conta de que estava lidando com um dos demônios mais poderosos do inferno.
Apareceu apenas três vezes na História. A primeira, em Ludón (França), no século XVI. Quase todas as freiras de um convento ficaram possuídas por uma multidão de diabos, que as atormentavam sem cessar. O chefe era Zabulon. A segunda, foi nos anos 50, em um caso de exorcismo realizado pelo padre Cândido, o exorcista italiano mestre do padre Amorth. E agora, voltou a aparecer.
Como se vê, o exorcismo é um ritual que compreende às vezes várias sessões, durante anos. Muitas vezes, não acontece nada de extraordinário, tornando-se rituais extremamente monótonos, como o próprio padre Fortea relata. Não existe uma regra, existe a oração e a piedade, atuando para libertar os aflitos.
Num primeiro momento era minha intenção pôr mais de um relato, mas dos relatos possíveis de se comprovar veracidade não encontrei nenhum que fugisse aos moldes desse, não acrescentando portanto, nada em sua leitura. Leiam. Reflitam.
Há mais nesse mundo que nossos olhos podem ver, disso tenho certeza.
Mas não temam absolutamente nada! Deus é supremo. Sua Santa Mãe é superior ao mal e sempre nos acolherá!
Abraços,
Pax Domini..
* Pra quem não curtiu o tema, relaxem. No próximo post voltaremos aos temas políticos hhahahahhahaha.



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