quinta-feira, 29 de maio de 2014

Monólogo vermelho - Parte 1


-Xeque.
- É... nós continuamos usando as mesmas jogadas desde os dezoito. Você aparece cinquenta anos mais novo e, pro nosso desgosto, percebo que não evoluímos nada no jogo.
- Apesar de velho, você está menos gagá e mais irritante do que presumira.
Jogávamos Xadrez no asilo no qual fora internado. Eu com vinte e eu com setenta, o velhote brocha, pelancudo e fedendo a mijo que me tornara. Sem mais pormenores, não vou explicar a aurora de tal reunião. Dane-se o leitor. Voltemos a nós dois.
- Pretendo escrever um conto narrando nosso encontro.
- Seu idiota, Borges já fez isso num conto que você leu aos 22.
 - Mas eu ainda tenho 21.
- Isso significa que você ainda não o leu. Então escreva antes de ler o conto para não tender a plagiá-lo! A ideia ainda é original; mas saiba que você será um fiasco como escritor. Brasileiro não tem nada pra falar. Entendemos de bunda, pandeiro e futebol, mas não de literatura. Nos falta aquele calor ardente dos caribenhos. Nunca produziríamos um Garcia Márquez. O Brasil não tem uma safra decente de escritores desde os modernistas.
- Ah... Garcia Márquez... É foda mesmo! Mas e o Paulo coelho? Ele ficou bem famoso!
-Paulo o que? Uma bosta! Escreveu umas músicas pro Raul que até eram legais. Depois disso fumou muita erva e vendeu muita porcaria na Europa. Malditos europeus sedentos por leitura pobre e transcendente.  Deve ser a nostalgia do velho continente. Deixa os caras pirados.
-Você quer falar de que, moleque?
-Política, por favor!
-Pois então diga, o que quer saber?
-Bolivarismo! Socialismo! Que tal começarmos aqui.
-Bom, o Chávez morreu. Você já tava sabendo?
-Sim, foi recente, ano passado, se não me falha a memória.
 -Em relação ao socialismo: olhe aquele velhote barbudo ali. Você o reconhece? -Olhou o idoso magrinho, claramente debilitado, trajando um macacão adidas vermelho, assentado numa cadeira tosca de madeira.
-Não. Quem é?
 -Quem é? Como quem é?! Porra é o Fidel! A Veja até tentou mata-lo em 2012, você não se lembra? Cento e dez anos na carcaça.  Ainda ontem fumamos um Cohiba juntos.
-Eu não fumo, seu desgraçado!
-Você não; eu comecei aos sessenta, depois da revolução Bolivariana de 2050. Um socialista  que se prese precisa de uma barba e de um charuto.
-A... então você é socialista?- Contive o riso, mesmo assim, ele se irritou.
- E você é o que? Você lia Marx sem entender porra nenhuma desde os 15; eu sei mais coisas sobre nós do que você garoto, não se esqueça.
-Cala a boca! E essa revolução ai?
-Bem, A coisa toda começou pouco depois da morte do Chavez; tinha alguma coisa a ver com a saúde, os médicos cubanos, a greve nas universidades públicas, uma copa do mundo no Brasil... Estou tentando me lembrar mas... Não me vem a cabeça...Porra!
 -Só me faltava essa, encontrar-me cinquenta anos mais velho, habitando um asilo nojento e com lapsos de memória.
Nesse momento uma enfermeira se aproxima.
- Señor, venimos a la consulta médica de la semana?

  

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