sábado, 13 de setembro de 2014

A Gênese do Mal: diálogo com um exorcista - Parte 2



Continuando nossa conversa sobre o mal, agora em mais nove perguntas...


2. Por que Deus não suspendeu a Liberdade (dos anjos) ao ver que começavam a pecar?

Por que Deus não retira a Liberdade ao ver que alguém se encaminha para o Mal? Não o faz mesmo, pois isso significaria apostar que tal espírito estaria fadado, irremediavelmente, a cair sob o Mal. Permitir-lhe continuar fazendo o Mal supõe oferecer-lhe a chance de retornar ao Bem. Retirar-lhe a prova faria com que cometesse menos pecados, mas, então, o espírito que tivesse sido salvo da prova se petrificaria para sempre no pecado daquele exato momento, para sempre. Possibilitar que o Mal siga fazendo o Mal lhe dá a oportunidade de retroceder.

 Ademais há de se convir que Deus não pode se contradizer. Se Ele lhes concedeu a liberdade, não pode cerceá-la de forma alguma.

3. São iguais todos os demônios?

Já vimos que cada demônio pecou com uma intensidade determinada. Além disso, cada demônio pecou em um ou mais pecados específicos. A rebelião teve origem na soberba [ou orgulho]. Mas, dessa raiz de pecados, nasceram outros tantos pecados. Durante os rituais de exorcismo, isso fica muito claro: há demônios que pecam mais em Ira, outros mais em sua egolatria, e ainda outros por desespero, etc. Cada demônio tem, de forma análoga aos seres humanos, sua psicologia, sua forma particular de ser. Há aqueles que são mais eloquentes, outros mais dados a bravatas e galhardias. Em uns, brilha de forma especial a soberba e, em outros, o ódio. Ainda que todos tenham se separado de Deus, uns são piores que outros em maldade [contumácia no Mal].
(...)
 Algo que fora comprovado através dos exorcismos é que, entre eles, há uma supremacia dos superiores sobre os inferiores. Em que consiste tal poder? É impossível sabê-lo, pois não se sabe como um demônio [por isso mesmo, feito livre] pode obrigar outro a fazer algo, pois não há corpo para ser compelido ou coagido. Não obstante, pude comprovar que um demônio superior pode proibir um inferior de sair de um corpo durante um exorcismo. Ainda que o demônio inferior esteja sofrendo e queira sair, o superior pode impedir-lhe. Como um demônio pode obrigar outro a fazer algo [ou proibi-lo], sendo este imaterial, repito, continua sendo um problema que escapa à nossa compreensão.



Pode ser explicado talvez devido à natureza predecessora, de quando ainda eram anjos. Costuma-se assumir que os anjos se reagrupavam em nove coros distintos em qualidades e funções. Com suas quedas, seus antigos predicados poderiam ter sido elevados ao nível de "status" por suas soberbas, afim de sustentar seus egos. Tais status se constituiriam em uma ordem de tirania de uns sobre outros.


4. Em que pensa um demônio?

Todo anjo decaído conserva a inteligência própria de sua natureza angélica e, com ela, segue tomando conhecimento de todas as coisas. Conhece e indaga, com sua mente, acerca do mundo material e espiritual, dos planos real e conceitual. Sendo ser espiritual, eminentemente intelectual, não há dúvidas de que está constantemente afeito às questões intelectuais. Ele sabe muito bem que a Filosofia é a mais elevada das ciências.
(...)
Mas, o demônio não está sempre, em cada instante, sofrendo. Muitas, vezes, simplesmente, pensa. Sofre apenas em certos momentos, quando se dá conta [da ideia] de Deus, quando volta a se certificar de sua condição miserável, de sua separação de Deus, quando reverbera o remorso em sua Consciência.
Há “tempos” em que sofre mais ou menos; seu sofrimento não é uniforme. Ainda mais: a intensidade que
marca a deformidade moral de cada demônio determina as variações de seu sofrimento e remorso.
Seria bastante horrível [e doentio] pensar nos demônios como seres permanentemente em sofrimento, em cada instante e momento. A separação de Deus produz sofrimento por toda a eternidade, mas é o pesar por tal afastamento e não um instrumento sádico de tortura, trabalhando dia e noite, que o faz sofrer. O demônio nem está sempre empenhado em tentações [contra os seres humanos] nem está sempre retorcendo-se em dores espirituais indizíveis [como creem algumas pessoas desequilibradas].


5. Onde estão os demônios?

Tanto as almas dos condenados como as dos demônios não podem deslocar-se para outros locais do espaço; tampouco, se pode dizer que estão em outra dimensão. Quê significa estar ou não estar em outra dimensão, para um espírito? Simplesmente, não estão em lugar algum! Existem, mas não estão nem aqui nem
acolá.
Diz-se que um demônio está em um local quando atua nesse local. Se um demônio está a tentar alguém aqui, diz-se que ele está aqui. Se um demônio se apodera de um corpo ali, da mesma forma diz-se que está ali. Se um demônio move uma cadeira num fenômeno do tipo poltergeist, diz-se que ele está realmente em tal lugar. Mas, na realidade, não está ali, mas apenas atuando ali [através da tríade Pensamento-Vontade-Ação].
O Inferno, o Céu e o purgatório são estados. Apenas depois da ressurreição dos corpos dos condenados, aí sim estarão em um local determinado e fixo [eterno], e por isso mesmo que só a partir daí é que o Inferno se tornará em um local concreto. Os corpos dos bem-aventurados também ocuparão lugar. Por isso, diz-se na Bíblia que João viu “um novo céu e uma nova terra” (Ap 21, 1)


6. Por que Deus permite a tentação?

Se Deus não tenta, por que permite a tentação? Encontramos a resposta para tal pergunta no versículo seguinte:
“Considerai que é suma alegria, meus irmãos,
quando passais por diversas provações,
sabendo que a prova da vossa fé produz a paciência.”
(Tg 1, 2.3)
Sem a tentação, não subsistiria essa constância na virtude que nos permite resistir sempre mais à tentação sedutora. Em outras palavras, há certas virtudes que jamais aflorariam sem que pudéssemos ser submetidos à tentação. E mais: quanto mais dura for a prova, mais brilhará a luz de tal virtude ao sobrepujar a essa tentação.
Isto nos leva à seguinte constatação: Deus poderia ter interditado os demônios de modo a nunca interferir na história humana. Mas, Deus sabia que, apesar de os demônios serem a causa dos males, propiciariam ocasiões de grandes maravilhas ao darem vez a um maior valor para as virtudes conquistadas. De certo modo, poderíamos admitir que Deus aceitou a possibilidade de surgirem maiores Trevas se, com isso, se obtivesse uma Luz mais pura e (verdadeiramente) luminosa. Do contrário, bastaria uma simples ordem de Deus para que nem sequer um só demônio pudesse ter entrado em contato com um ser humano. Assim, se Deus permitiu tal contato, é porque dele poderiam advir um Bem maior.



7. É possível fazer um pacto com o Demônio?

As pessoas se acostumaram a pensar que os pactos com demônios existem apenas na literatura [ou cinema]. Enganam-se! Há pessoas que, conscientemente e a despeito de todas as advertências, fazem pactos com o Demônio e lhe entregam suas almas a fim de conseguir certas coisas nesta mesma vida. A ideia de um pacto formal com o Demônio surge, primeiramente, no século V, através de escritos de São Jerônimo. Este padre da Igreja nos conta como um jovem, para ser aceito por uma certa bela mulher, foi a um bruxo, o qual lhe exigiu, como preço por seus serviços, renunciar a Cristo por [um contrato] escrito. Tivemos, no século VI, a aparição de mais um pacto deste tipo na lenda de Teófilo, o qual aceita ser um servo do Diabo e firma um pacto formal. Esta lenda se difundiu pela Europa na Idade Média.
É possível um pacto com o Demônio? Claro que alguém pode firmar um papel, mas não o levará para apresentá-lo ao Demônio, nem para lhe entregar o papel nem para reconhecê-lo. Quando se faz um pacto deste tipo, sempre espera-se que alguém apareça, mas é ele mesmo que tem de escrever os termos [do contrato], e mesmo assim ninguém aparece quando é firmado o pacto, já que ele mesmo permanece com o papel nas mãos. (...)
Conheci pessoalmente duas pessoas que fizeram um pacto [com o Diabo] e, sinceramente, seus níveis de vida eram piores, inclusive, que o meu. No âmbito carnal, o Diabo tampouco parece ter sido generoso com ambos. Isso se deve ao fato de o Diabo não ser Deus e não poder dar sempre o que quer.
 Contudo, ao arrepender-se, o pacto torna-se inócuo como um papel molhado pela chuva, sejam quais forem seus termos precedentes. Inclusive, ainda que haja cláusula excludente de arrependimento, a mesma se torna nula diante de uma Vontade consciente. Deus, ainda que nos tenha dado a liberdade de fazer o que quisermos, não nos permitiu usar a liberdade para renunciar à mesma liberdade.
Muitos pensam que o Diabo pode nos dar o triunfo nos negócios ou em nossa profissão. Mas, a Razão pela qual o Diabo não pode conceder nem sequer isso a seus servos é que o sucesso de uma empresa ou em uma profissão depende de uma cadeia de muitas causas e fatores. O Demônio pode apenas tentar. Assim, por exemplo, pode tentar a um chefe para que escolha um tal empregado ao invés de um outro. Mas, a tentação se pode superar. Portanto, nem essa coisa tão simples o Demônio garanta, com certeza, que aconteça.
O grande poder de um pacto com o Demônio é fazer uma pessoa pensar que já está condenada [tendo pecado uma vez], faça o que fizer, de bom ou mal. Dá trabalho fazer uma pessoa, que tenha feito tal trato, entender que continua sendo tão livre como antes.

8. Com que forma os demônios se apresentam à visão dos homens?

Os demônios não possuem uma forma visível determinada, sua forma é imaterial. Portanto, se se manifestarem em forma visível, o farão mediante a aparência que desejarem. Qualquer forma, por mais bela que seja, humana ou angélica, está dentro das capacidades demoníacas. Poderiam aparecer como uma padre conhecido, de nosso confessor ou mesmo do Santo Padre. Para que nos fique claro, somos como crianças ao lado deles, diferindo eles de nós apenas por seu caráter maléfico.
(...)
Quando dizemos que Satanás é um dragão ou uma serpente, queremos significar que ele tem caráter monstruoso, selvagem, peçonhento e astuto desses seres. Mas, não que tenha em algum caso essa
aparência, já que segue sendo um belo anjo por sua natureza, ainda que repugnante em seu aspecto moral. A deformação que Satanás sofreu foi em sua essência, não em sua natureza. Seu ser interior se degenerou, mas sua natureza permanece permanecerá intacta, faça o que fizer. Dado que ambas as coisas são indissociáveis, ele verdadeiramente é um monstro, um ser deformado que causa repugnância e aversão.



9. Por que, na Bíblia, Deus chama o Diabo de “Príncipe deste mundo”?

Em certas casos, a Bíblia usa expressões para se referir ao Diabo que podem parecer exageradas. No entanto, todo o Livro Sagrado está perfeitamente medido. Deus é o Dominus (Senhor) e o Rex (Rei), estando estes dois termos reservados [somente] a Deus nas Sagradas Escrituras. Há apenas um Rei e um único Senhor. Ou seja, há apenas um detentor de todo o Poder e um único detentor de todos os direitos.
Deus é o Rei, enquanto o Diabo é o princeps (príncipe). Esta palavra, em latim, expressa a ideia daquele que “é o primeiro, o que está no lugar mais importante, o maioral entre os principais”. Existe uma extensa Tradição, que remonta aos Santos Padres, que ensina que o Diabo, antes de rebelar-se (contra Deus), era o mais belo e poderoso de todos os seres angélicos (anjos). Mesmo sendo extrabíblica esta Tradição, há certos versículos que, de forma subliminar, estariam de acordo com ela. Assim, por exemplo, as Sagradas Escrituras, ao denominar o Diabo de Príncipe deste mundo está, sem dúvidas, dizendo que ele é o mais poderoso deste mundo.


10. Deus pode perdoar os demônios?

Deus pode perdoar qualquer pecado, por mais grave que seja. Mas Deus não pode perdoar um demônio. Porque Deus não pode perdoar quem não se arrepende [nem quer se arrepender] de seu pecado. Fazer tal coisa provocaria uma desordem não só conceitual, mas também prática, e Deus não pode propugnar desordens. Como se vê, o problema não está no pecado em si (Deus pode perdoar tudo, e o quer), mas na Vontade do pecador (Deus não pode cercear a Vontade livre).
Como já dito anteriormente, há muitas pessoas que pensam que Deus não deveria ser tão severo, perdoando os condenados. Mas, pela razão já aduzida, o mesmo Deus que pode criar milhões de mundos apenas com seu querer, não pode perdoar nem mesmo a um demônio sequer. Deus Onipotente, que pode tudo, não pode o impossível. E é-Lhe impossível criar uma Vontade livre para depois obriga-la a se arrepender [o que seria uma contradição, e Deus não se contradiz].




Para não sermos muitos extensos, logo menos eu venho com a terceira a última parte, com os relatos de exorcismos.

Pax Domini.

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