Continuando nossa conversa sobre o mal, agora em mais nove perguntas...
2. Por que Deus não suspendeu a Liberdade (dos anjos) ao ver que começavam a pecar?
2. Por que Deus não suspendeu a Liberdade (dos anjos) ao ver que começavam a pecar?
Por que Deus não retira a Liberdade ao ver que alguém se
encaminha para o Mal? Não o faz mesmo, pois isso significaria apostar que tal
espírito estaria fadado, irremediavelmente, a cair sob o Mal. Permitir-lhe
continuar fazendo o Mal supõe oferecer-lhe a chance de retornar ao Bem.
Retirar-lhe a prova faria com que cometesse menos pecados, mas, então, o
espírito que tivesse sido salvo da prova se petrificaria para sempre no pecado
daquele exato momento, para sempre. Possibilitar que o Mal siga fazendo o Mal
lhe dá a oportunidade de retroceder.
Ademais há de se convir que Deus não pode se contradizer. Se Ele lhes concedeu a liberdade, não pode cerceá-la de forma alguma.
Já vimos que cada demônio pecou com uma intensidade
determinada. Além disso, cada demônio pecou em um ou mais pecados específicos.
A rebelião teve origem na soberba [ou orgulho]. Mas, dessa raiz de pecados,
nasceram outros tantos pecados. Durante os rituais de exorcismo, isso fica
muito claro: há demônios que pecam mais em Ira, outros mais em sua egolatria, e
ainda outros por desespero, etc. Cada demônio tem, de forma análoga aos seres
humanos, sua psicologia, sua forma particular de ser. Há aqueles que são mais
eloquentes, outros mais dados a bravatas e galhardias. Em uns, brilha de forma
especial a soberba e, em outros, o ódio. Ainda que todos tenham se separado de
Deus, uns são piores que outros em maldade [contumácia no Mal]. Algo que fora comprovado através dos exorcismos é que, entre eles, há uma supremacia dos superiores sobre os inferiores. Em que consiste tal poder? É impossível sabê-lo, pois não se sabe como um demônio [por isso mesmo, feito livre] pode obrigar outro a fazer algo, pois não há corpo para ser compelido ou coagido. Não obstante, pude comprovar que um demônio superior pode proibir um inferior de sair de um corpo durante um exorcismo. Ainda que o demônio inferior esteja sofrendo e queira sair, o superior pode impedir-lhe. Como um demônio pode obrigar outro a fazer algo [ou proibi-lo], sendo este imaterial, repito, continua sendo um problema que escapa à nossa compreensão.
Pode ser explicado talvez devido à natureza predecessora, de quando ainda eram anjos. Costuma-se assumir que os anjos se reagrupavam em nove coros distintos em qualidades e funções. Com suas quedas, seus antigos predicados poderiam ter sido elevados ao nível de "status" por suas soberbas, afim de sustentar seus egos. Tais status se constituiriam em uma ordem de tirania de uns sobre outros.
4. Em que pensa um demônio?
Todo anjo decaído conserva a inteligência própria de sua
natureza angélica e, com ela, segue tomando conhecimento de todas as coisas.
Conhece e indaga, com sua mente, acerca do mundo material e espiritual, dos
planos real e conceitual. Sendo ser espiritual, eminentemente intelectual, não
há dúvidas de que está constantemente afeito às questões intelectuais. Ele sabe
muito bem que a Filosofia é a mais elevada das ciências.(...)
Mas, o demônio não está sempre, em cada instante, sofrendo. Muitas, vezes, simplesmente, pensa. Sofre apenas em certos momentos, quando se dá conta [da ideia] de Deus, quando volta a se certificar de sua condição miserável, de sua separação de Deus, quando reverbera o remorso em sua Consciência.
Há “tempos” em que sofre mais ou menos; seu sofrimento não é
uniforme. Ainda mais:
a intensidade que
marca a deformidade moral de cada demônio determina as
variações de seu sofrimento e remorso.
Seria bastante horrível [e doentio] pensar nos demônios como
seres permanentemente em sofrimento, em cada instante e momento. A separação de
Deus produz sofrimento por toda a eternidade, mas é o pesar por tal afastamento
e não um instrumento sádico de tortura, trabalhando dia e noite, que o faz
sofrer. O demônio nem está sempre empenhado em tentações [contra os seres
humanos] nem está sempre retorcendo-se em dores espirituais indizíveis [como
creem algumas pessoas desequilibradas].
5. Onde estão os demônios?
Tanto as almas dos condenados como as dos demônios não podem
deslocar-se para outros locais do espaço; tampouco, se pode dizer que estão em
outra dimensão. Quê significa estar ou não estar em outra dimensão, para um
espírito? Simplesmente, não estão em lugar algum! Existem, mas não estão nem
aqui nem
Diz-se que um demônio está em um local quando atua nesse
local. Se um demônio está a tentar alguém aqui, diz-se que ele está aqui. Se um
demônio se apodera de um corpo ali, da mesma forma diz-se que está ali. Se um
demônio move uma cadeira num fenômeno do tipo poltergeist, diz-se que ele está realmente em tal lugar. Mas, na
realidade, não está ali, mas apenas atuando ali [através da tríade
Pensamento-Vontade-Ação].
O Inferno, o Céu e o purgatório são estados. Apenas depois da
ressurreição dos corpos dos condenados, aí sim estarão em um local determinado
e fixo [eterno], e por isso mesmo que só a partir daí é que o Inferno se
tornará em um local concreto. Os corpos dos bem-aventurados também ocuparão
lugar. Por isso, diz-se na Bíblia que João viu “um novo céu e uma nova terra” (Ap 21, 1)
6. Por que Deus permite a tentação?
Se Deus não tenta, por que permite a tentação? Encontramos a
resposta para tal pergunta no versículo seguinte:
“Considerai que é suma alegria, meus
irmãos,
quando passais por diversas
provações,
sabendo que a prova da vossa fé
produz a paciência.”
(Tg 1, 2.3)
Sem a tentação, não subsistiria essa constância na virtude que
nos permite resistir sempre mais à tentação sedutora. Em outras palavras, há
certas virtudes que jamais aflorariam sem que pudéssemos ser submetidos à
tentação. E mais: quanto mais dura for a prova, mais brilhará a luz de tal
virtude ao sobrepujar a essa tentação.
Isto nos leva à seguinte constatação: Deus poderia ter interditado
os demônios de modo a nunca interferir na história humana. Mas, Deus sabia que,
apesar de os demônios serem a causa dos males, propiciariam ocasiões de grandes
maravilhas ao darem vez a um maior valor para as virtudes conquistadas. De
certo modo, poderíamos admitir que Deus aceitou a possibilidade de surgirem
maiores Trevas se, com isso, se obtivesse uma Luz mais pura e (verdadeiramente)
luminosa. Do contrário, bastaria uma simples ordem de Deus para que nem sequer
um só demônio pudesse ter entrado em contato com um ser humano. Assim, se Deus
permitiu tal contato, é porque dele poderiam advir um Bem maior.
7. É possível fazer um pacto com o
Demônio?
As pessoas se acostumaram a pensar que os pactos com demônios
existem apenas na literatura [ou cinema]. Enganam-se! Há pessoas que,
conscientemente e a despeito de todas as advertências, fazem pactos com o
Demônio e lhe entregam suas almas a fim de conseguir certas coisas nesta mesma
vida. A ideia de um pacto formal com o Demônio surge, primeiramente, no século
V, através de escritos de São Jerônimo. Este padre da Igreja nos conta como um
jovem, para ser aceito por uma certa bela mulher, foi a um bruxo, o qual lhe
exigiu, como preço por seus serviços, renunciar a Cristo por [um contrato]
escrito. Tivemos, no século VI, a aparição de mais um pacto deste tipo na lenda
de Teófilo, o qual aceita ser um servo do Diabo e firma um pacto formal. Esta
lenda se difundiu pela Europa na Idade Média.
É possível um pacto com o Demônio? Claro que alguém pode
firmar um papel, mas não o levará para apresentá-lo ao Demônio, nem para lhe
entregar o papel nem para reconhecê-lo. Quando se faz um pacto deste tipo,
sempre espera-se que alguém apareça, mas é ele mesmo que tem de escrever os
termos [do contrato], e mesmo assim ninguém aparece quando é firmado o pacto,
já que ele mesmo permanece com o papel nas mãos. (...)
Conheci pessoalmente duas pessoas que fizeram um pacto [com o Diabo] e, sinceramente, seus níveis de vida eram piores, inclusive, que o meu. No âmbito carnal, o Diabo tampouco parece ter sido generoso com ambos. Isso se deve ao fato de o Diabo não ser Deus e não poder dar sempre o que quer.
Conheci pessoalmente duas pessoas que fizeram um pacto [com o Diabo] e, sinceramente, seus níveis de vida eram piores, inclusive, que o meu. No âmbito carnal, o Diabo tampouco parece ter sido generoso com ambos. Isso se deve ao fato de o Diabo não ser Deus e não poder dar sempre o que quer.
Contudo, ao arrepender-se, o pacto torna-se inócuo como um
papel molhado pela chuva, sejam quais forem seus termos precedentes. Inclusive,
ainda que haja cláusula excludente de arrependimento, a mesma se torna nula
diante de uma Vontade consciente. Deus, ainda que nos tenha dado a liberdade de
fazer o que quisermos, não nos permitiu usar a liberdade para renunciar à mesma
liberdade.
Muitos pensam que o Diabo pode nos dar o triunfo nos negócios
ou em nossa profissão. Mas, a Razão pela qual o Diabo não pode conceder nem
sequer isso a seus servos é que o sucesso de uma empresa ou em uma profissão
depende de uma cadeia de muitas causas e fatores. O Demônio pode apenas tentar.
Assim, por exemplo, pode tentar a um chefe para que escolha um tal empregado ao
invés de um outro. Mas, a tentação se pode superar. Portanto, nem essa coisa
tão simples o Demônio garanta, com certeza, que aconteça.
O grande poder de um pacto com o Demônio é fazer uma pessoa
pensar que já está condenada [tendo pecado uma vez], faça o que fizer, de bom
ou mal. Dá trabalho fazer uma pessoa, que tenha feito tal trato, entender que
continua sendo tão livre como antes.
8. Com que forma os demônios se
apresentam à visão dos homens?
Os demônios não possuem uma forma visível determinada, sua
forma é imaterial. Portanto, se se manifestarem em forma visível, o farão
mediante a aparência que desejarem. Qualquer forma, por mais bela que seja,
humana ou angélica, está dentro das capacidades demoníacas. Poderiam aparecer
como uma padre conhecido, de nosso confessor ou mesmo do Santo Padre. Para que nos
fique claro, somos como crianças ao lado deles, diferindo eles de nós apenas
por seu caráter maléfico.
(...)
Quando dizemos que Satanás é um dragão ou uma serpente,
queremos significar que ele tem caráter monstruoso, selvagem, peçonhento e astuto
desses seres. Mas, não que tenha em algum caso essa
aparência, já que segue
sendo um belo anjo por sua natureza, ainda que repugnante em seu aspecto moral.
A deformação que Satanás sofreu foi em sua essência, não em sua natureza. Seu
ser interior se degenerou, mas sua natureza permanece permanecerá intacta, faça
o que fizer. Dado que ambas as coisas são indissociáveis, ele verdadeiramente é
um monstro, um ser deformado que causa repugnância e aversão.
9. Por que, na Bíblia, Deus chama o
Diabo de “Príncipe deste mundo”?
Em certas casos, a Bíblia usa expressões para se referir ao
Diabo que podem parecer exageradas. No entanto, todo o Livro Sagrado está
perfeitamente medido. Deus é o Dominus
(Senhor) e o Rex (Rei), estando estes
dois termos reservados [somente] a Deus nas Sagradas Escrituras. Há apenas um
Rei e um único Senhor. Ou seja, há apenas um detentor de todo o Poder e um
único detentor de todos os direitos.
Deus é o Rei, enquanto o Diabo é o princeps (príncipe). Esta palavra, em latim, expressa a ideia
daquele que “é o primeiro, o que está no lugar mais importante, o maioral entre
os principais”. Existe uma extensa Tradição, que remonta aos Santos Padres, que
ensina que o Diabo, antes de rebelar-se (contra Deus), era o mais belo e
poderoso de todos os seres angélicos (anjos). Mesmo sendo extrabíblica esta
Tradição, há certos versículos que, de forma subliminar, estariam de acordo com
ela. Assim, por exemplo, as Sagradas Escrituras, ao denominar o Diabo de Príncipe deste mundo está, sem dúvidas,
dizendo que ele é o mais poderoso deste
mundo.
10. Deus pode perdoar os demônios?
Deus pode perdoar qualquer pecado, por mais grave que seja.
Mas Deus não pode perdoar um demônio. Porque Deus não pode perdoar quem não se
arrepende [nem quer se arrepender] de seu pecado. Fazer tal coisa provocaria
uma desordem não só conceitual, mas também prática, e Deus não pode propugnar
desordens. Como se vê, o problema não está no pecado em si (Deus pode perdoar
tudo, e o quer), mas na Vontade do pecador (Deus não pode cercear a Vontade
livre).
Como já dito anteriormente, há muitas pessoas que pensam que
Deus não deveria ser tão severo, perdoando os condenados. Mas, pela razão já
aduzida, o mesmo Deus que pode criar milhões de mundos apenas com seu querer,
não pode perdoar nem mesmo a um demônio sequer. Deus Onipotente, que pode tudo,
não pode o impossível. E é-Lhe impossível criar uma Vontade livre para depois
obriga-la a se arrepender [o que seria uma contradição, e Deus não se
contradiz].
Para não sermos muitos extensos, logo menos eu venho com a terceira a última parte, com os relatos de exorcismos.
Pax Domini.
0 comentários:
Postar um comentário