Caríssimos, boa noite!
Estava eu refletindo sobre nosso mundinho de Deus e acerca da problemática da propriedade privada que abordei tão levianamente em meu último post.
Pois bem, à luz da meditação da liturgia diária de hoje, cheguei a algumas conclusões que gostaria de partilhar convosco.
Primeiramente, transcrevo as duas leituras bíblicas indicadas para o dia de hoje (10/06/14): uma do Antigo Testamento e a outra pertencente ao Evangelho Segundo São Mateus.
Primeira Leitura (1Rs 17,7-16)
Leitura do Primeiro Livro dos Reis.
Naqueles dias, 7secou a torrente do lugar onde Elias estava escondido, porque não tinha chovido no país. 8Então a palavra do Senhor foi-lhe dirigida nestes termos: 9“Levanta-te e vai a Sarepta dos sidônios, e fica morando lá, pois ordenei a uma viúva desse lugar que te dê sustento”.
10Elias pôs-se a caminho e foi para Sarepta. Ao
chegar à porta da cidade, viu uma viúva apanhando lenha. Ele chamou-a e
disse: “Por favor, traze-me um pouco de água numa vasilha para eu
beber”. 11Quando ela ia buscar água, Elias gritou-lhe: “Por favor, traze-me também um pedaço de pão em tua mão!”
12Ela respondeu: “Pela vida do Senhor, teu Deus, não
tenho pão. Só tenho um punhado de farinha numa vasilha e um pouco de
azeite na jarra. Eu estava apanhando dois pedaços de lenha, a fim de
preparar esse resto para mim e meu filho, para comermos e depois esperar
a morte”.
13Elias replicou-lhe: “Não te preocupes! Vai e faze
como disseste. Mas, primeiro, prepara-me com isso um pãozinho, e
traze-o. Depois farás o mesmo para ti e teu filho. 14Porque
assim fala o Senhor, Deus de Israel: ‘A vasilha de farinha não acabará e
a jarra de azeite não diminuirá, até o dia em que o Senhor enviar a
chuva sobre a face da terra’”.
15A mulher foi e fez como Elias lhe tinha dito. E comeram, ele e ela e sua casa, durante muito tempo. 16A farinha da vasilha não acabou nem diminuiu o óleo da jarra, conforme o que o Senhor tinha dito por intermédio de Elias.
- Palavra do Senhor.
Evangelho (Mt 5,13-16)
— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 13“Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se tornar insosso, com que salgaremos? Ele não servirá para mais nada, senão para ser jogado fora e ser pisado pelos homens.
14Vós sois a luz do mundo. Não pode ficar escondida uma cidade construída sobre um monte. 15Ninguém acende uma lâmpada e a coloca debaixo de uma vasilha, mas sim num candeeiro, onde ela brilha para todos os que estão em casa. 16Assim também brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus”.
— Palavra da Salvação.
Agora, se me permitem, faço uma breve apreciação das leituras, à luz da visão cristã Católica.
Pois bem, vemos na primeira leitura o envio do profeta Elias à Sarepta, velha localidade entre as famosas cidades fenícias de Tiro e Sidônia e que hoje recebe o nome de Sarfand ou Sarafand, no Líbano, se não me engano.
Uma vez lá, é dada a uma viúva a tarefa de alimentar o profeta e sustentá-lo enquanto ele ali estiver.
A viúva, receosa, argumenta que a pouca provisão que possuía só seria suficiente para assar um pão para que ela e o filho comam e depois pereçam de fome. Confiante, Elias insiste para que ela asse o pão para ele e traga-lhe de comer, junto a um copo de água. Solidária, a mulher consente e lhe dá o único alimento. Mas eis que então nem a farinha, nem o azeite e tampouco a água que a viúva possuía se acabam, mas dura por vários e vários dias.
Na leitura do Santo Evangelho vemos a bela e famosa comparação dos apóstolos - e aqui estão inclusos todos os homens e mulheres de boa vontade - com o sal e a luz. Eis que nos é dito: "Vós sois a luz das nações....e o sal da terra".
Que comparação gloriosa!
Ora, não é o sal que dá sabor ao alimento? Não é este mesmo que, inclusive, conserva contra a putrefação?
Ainda, não é a luz que ilumina e permite-nos ver a realidade do mundo com nossos próprios olhos?
E, no entanto, ambos operam - digamos - no anonimato.
Pois de fato é o sal que dá sabor e conserva, mas quando alguém se alimenta ninguém diz: "Que gostoso esse sal!" Mas sim, "Que gostosa essa comida!".
De modo análogo, é a luz que inunda nossos olhos para que vejamos as mais belas paisagens e ainda assim ninguém diz quão bela é a luz mas sim aquilo que ela revela!
Assim devemos nós agir, iluminar um caminho de trevas e conservar o mundo da putrefação iminente! E tudo isso seguindo uma única lei, dada a nós por Jesus em pessoa: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (cf. Mc 12: 31).
E sempre no silêncio! Dando ênfase ao projeto e não ao nosso ego.
É isso que extraio do Evangelho.
Sabendo já a forma como o apostolado cristão se dá, vejamos agora como ele sai do plano da fé, para adentrar o mundo das ações, retomando a primeira leitura:
Elias é o profeta e representa este mesmo apostolado de dedicação.
A viúva e seu filho representam os fracos e marginalizados da sociedade.
Aliás, a própria ambientação - Sarepta, estava situada num local de comum veneração do deus Baal, e não do deus hebraico, o que represente uma espécie de local hostil.
Eis que, no entanto, surge a viúva - figura socialmente e sentimentalmente desgraçada e que, mesmo legada ao relento, mantém a fé na promessa de seu deus. A fé é sua ultima esperança e, assim, mesmo sabendo ser aquele pão o último, ela o dá prontamente a Elias, num sinal de amor e solidariedade.
Vejam, é então que a fé tornou-se fecunda com obras e que, na partilha, obteve sua máxima glória.
Ao confiar na promessa de seu deus, ela deu TUDO o que tinha e, em troca, recebeu muito mais. A viúva foi protagonista, agente ativa no processo de construção de um mundo mais fraterno.
Em verdade, ela poderia ter recusado o pão a Elias - pois essa prerrogativa lhe é garantida pelo livre-arbítrio - e tanto ela e o filho quanto o profeta teriam morrido de fome.
Mas a partilha traz a multiplicação: isso é sempre visível na Bíblia.
Ora, lembrem-se da multiplicação dos pães e peixes por Jesus (cf. Mt 14: 15-20).
Ou, em última instância, da travessia de Moisés sobre o deserto e a forma como o pão sagrado (Maná) caiu miraculosamente sobre eles no momento de maior desespero (cf. Ex 16: 12-20).
Viram? Na nossa pequena divagação percebemos como se dá a comunicação de Deus com o homem e sua ação posterior rumo à uma melhora de mundo.
Ele fala conosco: até então é matéria de fé.
Então a fé se torna obra por meio da CARIDADE, da partilha.
E a partilha por fim multiplica os dons.
No entanto, lembremo-nos sempre que nossas ações devem ter por objeto o bem maior e não nossa própria imagem. Temos nosso valor, mas ele se mostra principalmente no bom andamento da sociedade - como percebemos com a luz e o sal.
Bom, mas questionem-me: "O que isso tudo tem a ver com o problema da propriedade privada?"
TUDO!
Como eu havia dito, talvez o cerne da problemática não seja a existência da propriedade em si, pois o sentimento de posse é algo inerente ao homem e que só se lhe pode ser destituído no plano das ideias.
No entanto, a privação da propriedade pode se resolver: com educação e solidariedade.
Afinal, se todos nós fôssemos solidários não haveria necessidade de ninguém se resguardar - e repito isso de meu HVMILITAS ET VITAE. Pois lembrem-se: o pão era posse da viúva, de fato. Mas ela decidiu dá-lo.
E é exatamente aí que reside o espírito da questão, vejam que sutil:
Porque amar NÃO é coletivizar e estar obrigado a dar.
Amar é possuir e, mesmo possuindo, QUERER DAR.
Que nossa sociedade então aprenda a AMAR, para aprender a partilhar.
Forte abraço!
Pax Domini. ;D
Postagem longaaa, se vc chegou até aqui, meus parabéns! hahahahaha ;D
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