MANIFESTO
“HVMILITAS ET VITAE”
CARTA LEIGA AO POVO CRISTÃO E A TODOS OS HOMENS DE BOA VONTADE E EM COMUNHÃO ESPIRITUAL.
SOBRE A VIDA NA HUMILDADE E NO AMOR.
INTRODUÇÃO
1. A Nova Vida a qual somos chamados por Cristo depende unicamente de uma transformação interior. É abandonar a alegria dos prazeres momentâneos em detrimento de uma alegria mais profunda, que se sente em comunidade e no mais profundo da alma. O seguimento a Deus não é promessa de uma vida cheia de glória ou tampouco uma estrada sem obstáculos, mas simplesmente um novo caminho tendo por luz um amor eterno que é, ao mesmo tempo, o consolo na escuridão e o almejado local para onde todas as alegrias se convergem. Na verdade, esta mesma luz que é “capaz de iluminar toda a existência do homem” (cf. Encíclica Lumen Fidei), vem unicamente até nós quando, por amor à Palavra, nos desprendemos de nós mesmos em prol de uma vida pautada na humildade e na fraternidade, o que nem sempre se mostra fácil. Nesse quesito, mesmo os maiores esforços pelo progresso, apartados do amor verdadeiro, como bem explicita o papa Bento XVI em sua Carta Encíclica Deus Caritas Est, mostram-se estéreis, posto que jamais suscitarão o que de fato deve ser frutificado por cada homem, de acordo com cada individualidade: o amor fraterno por cada criatura de Deus. Assim, serão utilizados fatalmente como objeto de negligência e exaltação do orgulho, apartando o homem do divino.
I PARTE
SOBRE O AMOR NA ORAÇÃO
2. Em comunhão com o que diz o Papa Bento XVI na Carta Deus Caritas Est, “o amor é uma única realidade, embora com distintas dimensões”. E todas essas dimensões convergem em Deus, posto que “Deus é amor” (cf. 1Jo 4,8). Esta é uma visão ampla que pode fugir aos preceitos de várias religiões, mas creio ser lícito afirmar com toda simplicidade que basta conhecer o amor para conhecer Deus. Ainda que toda a riqueza inerente à liturgia possa ajudar a potencializar a percepção de toda esta espiritualidade, sem a pureza e a simplicidade do amor, cairíamos no preciosismo, exaltaríamos o culto à forma e nos esqueceríamos da essência de qualquer religião: a caridade como demonstração da fé e do amor. Esse mesmo amor, fruto de uma mortificação pessoal e de sacrifícios que obviamente vão além de interesses próprios, consiste naquilo que de fato é Deus e, ao mesmo tempo, no que se formalizou como o testamento de Jesus para nós: “Ame ao próximo como a ti mesmo” (c.f. Lc 10, 25-28). Esse sentimento novo, apartado de preconceitos e cisões, é o que aproxima a sociedade da forma mais fiel e bela possível. É a consciência máxima de que, posto ser o amor o próprio Deus, nós mesmos somos partes de Deus enquanto agentes ativos desse amor. Assim, a comunidade unida em oração nas assembléias, igrejas e campos se unem formando o próprio corpo de Deus, donde Cristo fez-se cabeça.
3. Aliás, no exercício pleno da oração é importante nos recordarmos deste mesmo amor incondicional a todo homem – o que de fato traz a unidade. Amar é reconhecer a função de cada ser como partícula especial do Santo Corpo de Deus e mais do que tudo, zelar pela integridade de cada uma dessas partículas. Deste modo, a vivência plena do amor requer o comprometimento de cada um seja no âmbito espiritual, seja no campo físico, pois “a fé sem obras é morta” (c.f. Tg 2, 14-17 ).
4. Caminhando pela vida, no entanto, percebemos que a prática do amor e da humildade se mostra uma verdadeira Via Crucis. De fato, amar quem te ama, ser gentil com quem te é caro e se sacrificar por quem se conhece é mais fácil – posto que a afeição leva naturalmente a uma predisposição ao bem. Contudo, é nos ditos inimigos e estranhos e nos momentos de escuridão e solidão que o amor vem mostrar sua verdadeira face como redentora de toda a humanidade. São nesses momentos precisamente que a misericórdia divina se mostra universal e acolhedora, e é então que a alma se enche de alegria, pois mesmo frente a todos os problemas exteriores, interiormente reina a estabilidade. Estabilidade fruto da confiança, da fé e do amor. De fato, qual gesto há de mais humilde do que se entregar integralmente aos desígnios de Deus? Se entregar por amor completa o homem e une a sociedade: É preciso se entregar para integrar e, assim, sejam nossas vidas nossas maiores provas de amor e de humildade. Sejam nossos gestos cotidianos, a maior oração a Deus, aquela que verdadeiramente o honra como Criador e Amor Original.
5. Mergulhados neste aspecto, devemos nos utilizar da singela oração cotidiana como instrumento salvífico para cada irmão em Cristo, independentemente de suas ações, afinal “não há um homem justo sequer” (c.f. Rm 3, 10-11). Ademais, devemos ter plena consciência de como as manipulações econômicas e a ineficiência dos governos cria o caos social, representado aqui pela própria figura de pessoas que, sem outra opção, recorrem à criminalidade. Tais pessoas figuram como vítimas de um sistema falido e, ainda, são julgados e condenados sumariamente. De fato, munidos da divindade emanada pelo Espírito Santo, é nosso dever enquanto sucessores dos apóstolos de Cristo, ungidos pela Palavra e pela ação batismal, nos apartarmos de tais julgamentos e unicamente orarmos pela salvação de cada alma, segundo o sacrifício de imolação do Cordeiro de Deus, enquanto tomamos as devidas providências como cidadãos para que através de nossos líderes, uma sociedade mais fraterna possa ser construída.
II PARTE
SOBRE COMO O AMOR E A HUMILDADE SE FAZEM NECESSÁRIOS NO PRESENTE
6. Não é preciso ir muito longe para encontrarmos exemplos de como a falta de amor afeta a sociedade. Em verdade, mesmo que não de forma intencional, o mais justo dos homens fere seu irmão o tempo todo num mundo onde muitas vezes o próprio consumo está intimamente ligado às mais diversas formas de exploração. Assim, é mais do que necessário voltarmos nosso olhar de uma forma mais cuidadosa sobre aquilo que é verdadeiramente nosso dever: o comprometimento integral não somente com cada homem, mas com todos os seres da criação. Afinal, como nos ensina o Credo Niceno-Constantinopolitano, foi um só Deus quem fez todas as coisas. Portanto, àquele que de fato deseja ser discípulo de Cristo não muito é pedido. Em verdade, duas coisas, creio, poderiam ser isoladas como sendo as principais diretrizes na vida de um servo de Cristo: a humildade e o amor - que figuram em toda a vida de Jesus e de seus santos e que também titulam o presente manifesto.
O AMOR
7. No decorrer de nossas vidas não só a sociedade ao nosso redor, mas também – e principalmente – a mídia anseia por inserir conceitos no interior de nossas mentes e corações para que possamos servir aos seus propósitos. Nesse contexto, o amor é posto, em geral, sob duas formas:
a) Como a satisfação de desejos imediatos – como é o caso quando se fala em amor a um produto qualquer: seja um objeto tecnológico, alimentício, ou uma peça de vestuário. Nesses casos, faz-se confusão entre uma necessidade primária ou mesmo supérflua e o contentamento ao satisfazer tal necessidade com o sentimento de amor – que inclusive muitas vezes pressupõe a não satisfação dos próprios desejos em função de um bem maior.
b) Como a satisfação de paixões ou desejos instintivos – como é o caso quando se postula como amor a simples atração física entre duas pessoas ou os desejos sexuais envolvidos numa relação.
8. De fato, o ato sexual em si é uma entre tantas manifestações de amor que existem. Contudo, o mundo passa por uma época onde o amor se encontra reduzido ao sexo, o que é insustentável. Acaso água é chuva? Ou seria a chuva somente uma das várias formas sob as quais a água vem até nós? A afirmação da última sentença nos parece óbvia, e o mesmo se aplica no caso do amor. A redução do amor a um simples ato, seja de qual natureza for, acaba por diminuir a grandeza de tal sentimento que - diga-se de passagem - jamais poderia ser resumido à nenhum sub-conceito sem que se perca a majestade dessa força criadora, revitalizadora e que tornou possível até mesmo a ressurreição dos mortos. É na verdade um Estado de graça, no qual todos somos redimidos e ao qual somos irrefutavelmente inerentes. O amor é antes de tudo a entrega, a temperança e o cuidado. É o companheirismo em todos os sentidos, em todos os momentos.
9. Assim, em ordem de nos tornarmos servos de Deus, é necessário ter consciência desse amor, vivê-lo, e fazer frutificar este sentimento que nos é tão lindo. É o fazer o bem, sem acepção de pessoas. Tomando as Escrituras, há uma belíssima parábola no Evangelho segundo São Lucas que narra a viagem de um samaritano (c.f. Lc 10, 30-37). Quando o samaritano vê um estranho caído, toma providências para que ele seja cuidado. Sem conhecer o homem e mesmo tomando prejuízos financeiros, o samaritano acolheu o viajante em seu coração, sem interesses, sem se preocupar em quem era o estranho: bom ou mau homem. É essa a lição que devemos tirar dessa leitura: que o bem e o amor justificam o homem. Assim, mesmo a fúria e a violência a criminosos, por exemplo, são injustificáveis, pois fechariam o ciclo de horrores que o mundo presencia hoje. Não há méritos para juiz moral entre os homens. Os criminosos devem sim ser julgados, mas implantando sanções civis que visem a reintegrá-los à sociedade. No entanto, puni-los simplesmente por raiva é absurdo, pois a vingança, o ódio e o sádico sentimento de infligir dor jamais podem ser usados como medida para julgamentos. Não quando o próprio Deus feito homem se sacrificou por todas as criaturas, independente de seus erros e suas negligências. Julgar com ódio, desonra o sacrifício de Cristo e nos tira de sintonia com o Amor do qual fazemos naturalmente parte. Assim, oremos aos céus para que o amor sempre se faça presente em nossas vidas, mesmo e principalmente nos momentos de trevas em nossos corações - quando toda a escuridão parece justificar a raiva, parece trazer alento para o espírito. Um alento que só o amor de fato traz.
A HUMILDADE
10. Talvez ainda mais difícil do que o amor, seja viver a humildade. Em verdade, mesmo o mais belo dos anjos caiu por falta deste sentimento a ponto de se deixar perder totalmente do amor e se tornar algo desfigurado que hoje conhecemos como Satanás. De fato, é possivelmente quando estamos em maior estado de graça ou quando melhor nos situamos em nossas vidas, espiritualmente e sentimentalmente, que nos falta este sentimento tão sublime. De forma silenciosa, como um ladrão, ela nos ataca (a arrogância, o orgulho) e se infiltra em nossos corações de forma avassaladora, fazendo crer que nós mesmos nos bastamos ou que de alguma forma já fizemos o suficiente ou que somos dignos de algum mérito. Nunca podemos dizer que já fizemos o suficiente, não em um mundo onde a miséria física e espiritual reinam. Não há mérito naquilo que fazemos, posto ser nossa obrigação como partes de um coletivo. Não há necessidade de mérito onde prevalece o amor, pois a felicidade alheia deve ser sempre o maior dos presentes.
11. Tomando novamente as Escrituras, percebemos como a humildade sempre foi determinante no seguimento da fé. Vemos nos patriarcas e nos santos, mas é sobretudo na virgem Santíssima, que percebemos como a serenidade de Espírito favorece a caminhada cristã. Maria, ao ser visitada pelo anjo, responde: “Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra” ( Lc 1, 38). Ainda, nos versículos que se seguem nos é exposto a linda oração do Magnificat, uma verdadeira profissão de fé e humildade. De fato, toda a vida de Maria se resumiu à servidão de uma forma tão fiel e pura que até hoje nunca se viu igual – e por isso mesmo tornou-se ela a rainha dos céus e da terra. É, portanto, verdade que este sentimento atua como purificador e mediador entre a graça e a mediocridade humana, e torna digno por graça o que não o é por natureza. Maria foi grande sendo pequena, foi sublime sendo mísera diante de Deus. Talvez tenha ela entendido mais do que qualquer outro que a realeza cristã está em servir. De fato, onde estaria a nobreza de um reino onde seu soberano morreu servindo ao povo? Onde estaria a majestade de um reino cujo rei portou uma coroa de espinhos e cujo manto rubro fora tingido por seu próprio sangue? Só em corações cheios de amor, transbordantes de caridade. E assim podemos ver quão bela é a mensagem de Cristo e quão penoso foi sua empreitada - sua paixão por nós e que continua em nós viva e transformadora.
12. Aliás, não é só na concepção de Cristo através de Maria e na própria vida do salvador, mas também na fundação da igreja que vemos a importância da humildade: Quando Simão, o pescador, professa sua fé em Cristo ( Mt 16, 13-20 ), é então que ele deixa de ser um homem e passa a ser a pedra base do cristianismo – ele é Pedro. A pedra fundamental da igreja é – agora explicitamente – a prontidão ao servir com modéstia e temperança. De fato, no decorrer do Evangelho supracitado, bem como nas demais epístolas petrinas, vemos diversas características que fazem de Pedro um líder bastante humanizado, com os mais diversos defeitos e faltas. Em verdade, é sua prontidão a seguir com fé mesmo nos piores momentos – inclusive em seu martírio – que faz dele o legítimo Santo Padre da Igreja, o Papa.
13. Sob tais aspectos, aos que desejam viver uma vida íntegra e santa, vemos que não é pedido nada que aspire à perfeição. É requisito básico sim o cuidado ao próximo como regra primaz de nossos ministérios, mesmo que esse cuidado, traduzido em respeito, às vezes pareça romper com antigas tradições. Contudo, sobre isto as próprias Escrituras nos ensinam, deixando claro que o homem deve servir antes ao mandamento universal de amor e depois às tradições (c.f. Mt 15, 1-9). Assim, devemos nos utilizar da oração não só como um ato de entrega e humildade como também um auxiliar no processo de dignificação das ações do homem, segundo a vontade do Pai, enquanto caminhamos em nossas próprias “Paixões” que culminarão na nossa morte – e de nossos pecados – e ressurreição triunfante com Cristo e em Cristo.
CONCLUSÃO: UMA BUSCA CONSTANTE
14. A vivência do amor cristão pede a entrega e a dedicação em tempo integral ao mundo. Aliás, fossem todos os homens generosos e íntegros, não haveria necessidade de ninguém se resguardar. Desta forma, a humildade se mostra como uma busca constante que só pode ser alcançada na eternidade, é como um tesouro que só é digno daqueles que o buscam incansavelmente. Ainda, o amor é a unidade construtiva que respeita e engrandece as individualidades, é como se o próprio Deus tivesse se deixado ser fruto de várias interpretações para mostrar que sua grandeza não é digna de ser compreendida por um só indivíduo, mas vivida por todo o seu povo. Sigamos, pois, São Paulo, quando este diz na sua Primeira Carta a Timóteo: “Quero, pois, que os homens orem em todo lugar, levantando as mãos santas, sem iras nem discussões.” (cf. 1Tm 2, 8). Sigamos Maria Santíssima em sua profunda entrega e humildade. Sigamos Pedro no comando da igreja santa. Sigamos os santos em suas empreitadas rumo à mudança do mundo. Mas, acima de tudo, sigamos nossos corações, onde jaz adormecida toda a divindade e todo o conhecimento de que necessitamos para realizar desde já o Reino de Deus, um reino de paz e alegria. Distante, não utópico. Um Jardim místico que já existe embrionário na esperança e na fé e que será regado pouco a pouco com suor e sangue do povo, crescendo, morrendo e se renovando em seguida – como é a lei da vida.
Dado em Franca, junto ao altar de nossa padroeira Aparecida, no dia 06 de Outubro – festa de São Bruno Abade – do ano de 2013, primeiro do Pontificado de Francisco.
A serviço da Santa Sé, do Santo Padre e de todas as criaturas, tomo o presente como diretriz,
MARIANO

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