Era já uma senhora, beirando
os seus cinquenta e poucos anos, cabelos longos caídos nos ombros, muito
bonita; porém nos olhos carregava um vazio e o sorriso, antes tão expressivo,
já não se fazia mais presente.
Acabara de limpar uma fita VHS e a colocava em
seu aparelho, muito antigo, mas ainda o guardava justamente para esse fim:
rodar essa única fita. Alguns diriam que ela estava perdendo mais um dia de sua
vida, porque desde criança assistira ao mesmo filme incontáveis vezes. Ela, no
entanto, respira, e sabe que estava apenas fazendo um eterno resgate de si
mesma.
A fita roda dentro do
aparelho, começa o som melancólico de um filme da Disney, quando pequena acreditava
apenas que o enredo do filme era atraente, já adulta percebeu que não, amava-o
porque nele se identificava, porque na história daquela heroína estava todo o
seu ser.
Começava a se desenhar na tela as montanhas, a muralha, a China; o
filme começara e surgira ela: Mulan; era uma animação pertencente a série das
princesas da Disney, baseada, no entanto, em na lenda de uma China imperial,
estamental; na qual a mulher não tinha voz, nem vez. Eis que surge Mulan, que
nega toda a sua tradição e, como forma de salvar o pai assume o lugar dele no
exército e se torna um excelente soldado, chegando, inclusive, a salvar a vida
da população chinesa, porque o território havia sido invadido por hunos.
Ela via as cenas, Mulan sendo
recusada pela casamenteira, buscando saber quem era, cortando os cabelos,
entrando para o exército, aprendendo a ser soldado, sendo descoberta, sendo desacreditada e depois vendo a China curvar-se
diante dela; os olhos repletos de água. Nunca quis que ninguém se curvasse diante
dela, porque via em Mulan uma mulher, comum, ela não era princesa nem se torna
uma, não se casa com um príncipe; só queria ajudar, buscar seus ideais e também
a igualdade.
Ela lembra-se aqui das três
lições que aprendeu com o filme, com a guerreira – porque para ela, Mulan era
mais guerreira que heroína. Aprendeu que por vezes o certo não é aquilo que nos
foi imposto, nem o que se espera de nós, mas o que acreditamos ser e que o amor
transmitido para o outro, independente se é ou não nosso parente, deve
prevalecer e devemos lutar por ele – lutar pelo outro, com coragem e bravura.
Aprendeu também que como
mulher não deveria ser passiva ou submissa, que deveria buscar a igualdade;
hoje acreditava que a igualdade se estende a todos independente do gênero ou
opção sexual.
E por fim, quando inúmeras
vezes, vendo a mesma história, o mesmo enredo; aprendia que era necessário
voltar à infância para recordar quem era, independente se a realidade não
fizesse mais qualquer sentido, sempre era possível reencontrar o ideal pelo
qual lutar, pelo qual morrer, se necessário. Reencontrar o outro,
reencontrar-se, reencontrar a si mesma no outro e ao outro em si mesma.
Limpava os olhos e agora
sorria, ela se lembrara, sim se lembrara de quem era... Ela era também Mulan!
Sejamos, pois, sempre guerreiros. E você, minha cara, já é uma grande guerreira - que os louros apareçam...
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