segunda-feira, 2 de junho de 2014

O (RE)ENCONTRO



Era já uma senhora, beirando os seus cinquenta e poucos anos, cabelos longos caídos nos ombros, muito bonita; porém nos olhos carregava um vazio e o sorriso, antes tão expressivo, já não se fazia mais presente.
 Acabara de limpar uma fita VHS e a colocava em seu aparelho, muito antigo, mas ainda o guardava justamente para esse fim: rodar essa única fita. Alguns diriam que ela estava perdendo mais um dia de sua vida, porque desde criança assistira ao mesmo filme incontáveis vezes. Ela, no entanto, respira, e sabe que estava apenas fazendo um eterno resgate de si mesma.
A fita roda dentro do aparelho, começa o som melancólico de um filme da Disney, quando pequena acreditava apenas que o enredo do filme era atraente, já adulta percebeu que não, amava-o porque nele se identificava, porque na história daquela heroína estava todo o seu ser.
Começava a se desenhar  na tela as montanhas, a muralha, a China; o filme começara e surgira ela: Mulan; era uma animação pertencente a série das princesas da Disney, baseada, no entanto, em na lenda de uma China imperial, estamental; na qual a mulher não tinha voz, nem vez. Eis que surge Mulan, que nega toda a sua tradição e, como forma de salvar o pai assume o lugar dele no exército e se torna um excelente soldado, chegando, inclusive, a salvar a vida da população chinesa, porque o território havia sido invadido por hunos.
Ela via as cenas, Mulan sendo recusada pela casamenteira, buscando saber quem era, cortando os cabelos, entrando para o exército, aprendendo a ser soldado, sendo descoberta, sendo desacreditada e depois vendo a China curvar-se diante dela; os olhos repletos de água. Nunca quis que ninguém se curvasse diante dela, porque via em Mulan uma mulher, comum, ela não era princesa nem se torna uma, não se casa com um príncipe; só queria ajudar, buscar seus ideais e também a igualdade.
Ela lembra-se aqui das três lições que aprendeu com o filme, com a guerreira – porque para ela, Mulan era mais guerreira que heroína. Aprendeu que por vezes o certo não é aquilo que nos foi imposto, nem o que se espera de nós, mas o que acreditamos ser e que o amor transmitido para o outro, independente se é ou não nosso parente, deve prevalecer e devemos lutar por ele – lutar pelo outro, com coragem e bravura.
Aprendeu também que como mulher não deveria ser passiva ou submissa, que deveria buscar a igualdade; hoje acreditava que a igualdade se estende a todos independente do gênero ou opção sexual.
E por fim, quando inúmeras vezes, vendo a mesma história, o mesmo enredo; aprendia que era necessário voltar à infância para recordar quem era, independente se a realidade não fizesse mais qualquer sentido, sempre era possível reencontrar o ideal pelo qual lutar, pelo qual morrer, se necessário. Reencontrar o outro, reencontrar-se, reencontrar a si mesma no outro e ao outro em si mesma.
Limpava os olhos e agora sorria, ela se lembrara, sim se lembrara de quem era... Ela era também Mulan!


Um comentário:

  1. Sejamos, pois, sempre guerreiros. E você, minha cara, já é uma grande guerreira - que os louros apareçam...

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