Acho que essa história já foi contada sob a ótica de cada
um, e sem dúvida, já li relatos maravilhosos que me fizeram chorar; como o
texto de despedida da Julia, ou os textos do blog do Lucas, que eu sempre leio
e me remetem à nostalgia daquele 2011, um dos melhores, mais tristes e nostálgicos
anos da minha vida.
Vocês sabem quem sempre fui dado às letras, e só não me
pronunciara antes porque, de certa forma, tive de blindar o peito contra a
profunda tristeza que me acometeu em vista da minha desistência da Universidade
Federal do ABC, e nunca tive a oportunidade expressar o meu pesar, que ficara
registrado naquelas poucas palavras frias escritas no meu violão com o qual
presenteei a pessoa da qual meu texto pretende tratar, nossa Goretinha.
Maria Gorete era a governanta da nossa casa, que como todos
os lares decentes de estudante, também tinha um apelido, “pensão da Vó Flávia”. Éramos por volta de 20 garotos e garotas sob
a responsabilidade dela.
No começo, haja vista nossa empolgação embasbacada tão comum
aos “bixos”, demos um pouco de trabalho. Uma semana desaparecia alguém, ela
tinha de ligar pros pais que ficavam desesperados; então o sumido sempre
aparecia no momento em que se pensava comunicar a polícia; algumas noites
depois alguém dormia bêbado no telhado (nosso telhado era chamado de “país das
maravilhas”; dispenso explicações); em alguma noite, tinha uma festa rolando no
quarto de alguém, as escondidas; mas também tinham as noites malucas pré provas
nas quais virávamos estudando na nossa querida salinha de estudos. Em todos
esses momentos, a Gorete esteve ali, ao nosso lado, brincando, nos dando
bronca, cantando, rindo e até chorando.
Juro que se eu pudesse, passaria no papel cada lembrança
daqueles anos sofridos que ainda me acometem a memória, mas se há algo de belo
na vida, é a tristeza advinda da nostalgia das lembranças que se perdem à
memória conforme o tempo passa, então não o farei. Mas confesso-lhes que, de
tantos momentos bons que passei ao lado de vocês, alguns dos mais proveitosos
se resumiram em minhas conversas com a Gorete, naquelas tardes frias, quando eu
preparava um cafezinho e nos sentávamos na cozinha para papear, logo após o
almoço.
Tão logo eu percebera o potencial dramático do que me contava
eu me atinha cada vez mais aos momentos em que passávamos conversando. Então
quando o café esfriava e os afazeres voltavam a vir a tona, nos despedíamos.
Então, eu corria pro meu quarto e anotava as suas histórias, suas paixões, as
suas músicas; e com isso fui pouco a pouco juntando partes que mais tarde me
renderiam alguns capítulos de um romance.
Meu texto versa de maneira não real acerca de ninguém e de
todos; apenas embasado em partes das
histórias que ouvia, e da minha inspiração triste das despedidas matinais na
esquina da Castro Alves com a Tamandaré, tristeza suficientemente inspiratória
para que começasse a rabiscar essas palavras;
Mostrarei algumas páginas:
Tamandaré
Tamandaré
Prólogo: Memórias de
um suicida.
“Não há nada a
temer,
a não ser as palavras.
As margens são ilusões.”
Este poderia ser um texto com a intenção de um pedido de
desculpas a todos vocês que amei de maneira singular, ou uma tentativa vil de justificação
à minha desistência.
Apesar disso, diz-se que um verdadeiro escritor não deve
morrer antes de versar ao menos um romance, e como já lhe havia prometido à
jornalista G. B., e ela a mim que se comprometeria ao menos resguardá-lo,
deixo-vos aqui o legado, primogênito e único que, na verdade, nada tem de
diferente das porcarias que qualquer medíocre aventureiro as letras possa
produzir num dia nublado ao som de Carlos Gardel. Mas como as mães que esbanjam
cuidados para com os filhos, assim são os escritores com seus romances. Para os
que duvidam do excesso de zelo com a obra, lembrem-se de Camões, e aqui no que
dizem as más línguas, que no lendário episódio de um naufrágio preferira salvar
o seu exemplar original dos Lusíadas à Dinamene, sua companheira até então.
Não somente por cuidado escreve-se, antes pois por vaidade
tola, na esperança de ter a obra intercambiada entre os demais e com isso
concretizar o eterno sonho utópico; eternizar-se. O Dilema de Aquiles, vida
plena ou reconhecimento perante os homens. Diante da ideia, digo que não há
outra maneira para fazê-lo se não por meio das palavras. “E disse Jesus: Eu sou o principio e o fim”.
O único contraponto, se assim o posso chamar, que o leitor
não há de encontrar no texto, se não implicitamente de modo meramente sutil, é
a fonte de inspiração da qual me deleito; uma tristeza profunda de alma, algo
inquietante que me corrói os ossos dia após dia. No exato momento em que verso
essa página já estava morto em vida.
São Paulo, Janeiro, 2013.

A saudade é tema bem recorrente em seus escritos, caro Beto...e isso é qualidade de quem dá valor em pessoas, situações...certamente não partilho de suas memórias, mas através do que falas, extraio ao menos um pouco da sua visão. Mas rapaz, essa coisa de falar em sentimentos é um dom, nunca se esqueça! =D Seria bacana entrar de bobeira numa livraria um dia e dar de cara com um livro de um certo autor B. Belozo. Abraação!
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